Carlos Eduardo Brefore Pinheiro, de Araçatuba, é doutor em teoria literária e literatura comparada

Carlos Brefore Pinheiro: 'Ele que o abismo viu'

"Ele que o abismo viu, o fundamento da terra, / Seus caminhos conheceu, ele sábio em tudo, / Gilgámesh que o abismo viu, o fundamento da terra, / Seus caminhos conheceu, ele sábio em tudo, // Explorou de todo os tronos, / De todo o saber, tudo aprendeu, / O que é secreto ele viu, e o coberto descobriu, / Trouxe isso e ensinou, o que antes do dilúvio era. // De distante rota volveu, cansado e apaziguado, / Numa estela se pôs então o seu labor inteiro. / Fez a muralha de Úruk, o redil, / E o sagrado Eanna, tesouro purificado."
 
Assim inicia-se o proêmio de "Ele que o Abismo Viu: epopeia de Gilgámesh", poema épico atribuído a Sin-léqi-unnínni, escrito por volta do século XIII a.C., na língua acádia, em tabuinhas de argila que estiveram desaparecidas até o século XIX, sendo descobertas entre 1872 e 2014. O texto, ainda que permaneça incompleto, com muitas lacunas em seu interior devido ao estado em que essas tábuas chegaram até nós, é considerado como a versão final da história do mítico personagem-título, que remonta a tempos bem mais antigos, e que foi sendo recontada, reescrita e traduzida, do sumério para o babilônico, em hinos e poemas, numa jornada milenar que nos leva até o século XXII a.C. 
 
"Ele que o Abismo Viu", recentemente traduzido para o português por Jacyntho Lins Brandão, professor de grego da UFMG, é considerado o texto literário mais antigo do mundo que sobreviveu ao tempo e chegou até nós, posto que até então era ocupado pelos dois poemas máximos da Grécia Antiga, atribuídos a Homero e que receberam versão escrita no século VIII a.C.: a "Ilíada" e a "Odisseia". De acordo com Tzi Abusch: "A epopeia de Gilgámesh é uma poderosa narrativa em mais de um sentido. Rilke chamou-a certa vez de a maior coisa que alguém poderia experimentar e muitos consideram-na a suprema realização literária do mundo antigo antes de Homero."
 
No poema, acompanhamos a trajetória do lendário personagem, que teria vivido por volta do século XXVII a.C. e governado como o quinto rei de Úruk após o dilúvio, ascendendo à condição de herói mítico por sua linhagem divina (filho de um humano como uma imortal) e por suas empreitadas guerreiras que o levam a uma compreensão mais profunda da condição humana, transmutando-se numa jornada existencial. 
 
A jornada de Gilgámesh pode ser dividida em duas partes, cada uma comportando uma viagem empreendida pelo protagonista. O que temos antes do início dessas aventuras é a descrição de seus feitos como soberano, bem como seus excessos, até a chegada de Enkídu, que foi feito da argila pelos deuses para ser o companheiro bélico do protagonista.
 
Tendo a seu lado alguém que se lhe equipara em bravura, Gilgámesh sai em sua primeira jornada, rumo à Floresta dos Cedros, para vencer Humbaba - um ser com forma humana, mãos de leão, face monstruosa, cabelos e bigodes longos. Vencido o oponente, vemos o herói rejeitar o pedido de casamento da deusa Ishtar, a vingança desta, que atinge o reino de Úruk, e a consequente morte de Enkídu. O que se segue à morte do amigo é uma longa lamentação por parte do protagonista, além de uma complexa preparação para o seu funeral.
 
É nessa atmosfera lúgubre que terá início a segunda jornada, agora com Gilgámesh viajando sozinho. Ainda atormentado pela morte do amigo, ele parte em busca de Uta-napíshti, que sobreviveu ao dilúvio por ter construído uma arca e que foi recompensado com o dom da imortalidade. No caminho, em que o protagonista ultrapassa a fronteira do mundo, há o encontro com os homens-escorpião, a taberneira Shidúri e o barqueiro Ur-shánabi. Junto a Uta-napíshti, acompanhamos o relato do dilúvio e, por fim, vemos Gilgámesh sendo presenteado com a planta da juventude. Porém o herói acaba perdendo a planta e volta de mãos vazias para seu reino. 
 
O fim do poema é um resgate da importância da cidade para os povos da Mesopotâmia. De acordo com Andrew George: "para os babilônios, a cidade é a única instituição sem a qual a civilização seria impossível (...) eterna, construída pelos deuses e habitada por homens, mais antiga que a memória e mantendo-se para um futuro desconhecido."
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