Carlos Eduardo Brefore Pinheiro, de Araçatuba, é doutor em teoria literária e literatura comparada

Camelot, por Carlos Eduardo Brefore Pinheiro

“É verdade! É verdade! A coroa já baixou o decreto: / O clima deve ser perfeito durante o ano todo. / A lei foi decretada há muitos e muitos anos. / Em julho e agosto não pode fazer calor demais. / E há até um limite para a neve aqui / Em Camelot. / O inverno está proibido até dezembro / E acaba em março sem atraso. / Por decreto, o verão se estende até setembro / Em Camelot. / Eu sei que parece estranho, / Mas em Camelot o clima é assim. / A chuva nunca pode cair antes do pôr do sol. / Às oito horas, a neblina da manhã deve desaparecer. / Em resumo, simplesmente não existe outro lugar / Que seja mais perfeito para o "felizes para sempre" / Do que aqui em Camelot."

A canção acima pertence ao musical "Camelot", de 1960, inspirado nas lendas sobre o Rei Arthur e seus Cavaleiros da Távola Redonda. O chamado ciclo arthuriano das novelas de cavalaria, envolvendo a figura do lendário rei, bem como as de personagens inesquecíveis, como o mago Merlin, a fada Morgana, a rainha Guinevere, o maior de todos os cavaleiros - Lancelot -, o único cavaleiro digno de encontrar o Santo Graal - Galahad -, entre outros, tem seu ápice com a publicação do livro "Le Morte d'Arthur", do inglês Thomas Malory, em 1485. Mas as histórias sobre Arthur (personagem histórico elevado à categoria de mito) são bem mais antigas e estão presentes em diversos textos da tradição medieval.

Voltemos à canção do musical "Camelot". Por trás da brincadeira a respeito das condições climáticas que envolvem aquele lugar de sonho que era a corte do Rei Arthur (com as estações do ano e as condições meteorológicas se adaptando ao édito real para garantir uma atmosfera de perfeita harmonia), há uma clara metáfora do perfil das relações humanas que seriam o padrão comportamental daquela nação utópica que era a Bretanha arthuriana. "Por certo é maravilhoso como esse meu reino uniu os homens pela gentileza e pelo companheirismo", afirma Arthur pouco depois do início de seu reinado.

Essa é a Camelot erigida pelo rei e seus cavaleiros, que tem como centro uma Távola Redonda (garantindo a igualdade entre todos os que se sentam à mesa) e que lança mão de um código militar de cavalaria eminentemente modelado pela justiça e pelo bem-estar que devem ser assegurados à população: "seriam gentis com os fracos, corajosos com os fortes e terríveis com os maus, e defenderiam os desprotegidos que lhe pedissem ajuda; e que também todas as mulheres lhes deveriam ser sagradas, e que deveriam defender-se uns aos outros sempre que fosse necessário, e que deveriam ser misericordiosos com todos os homens, e suas ações deveriam ser gentis, de verdadeira amizade e amor leal."

De fato, não há lugar que seja mais perfeito para o "felizes para sempre" do que Camelot! Mas ela é uma utopia. O sonho de um governo justo e de uma sociedade que vive em paz, harmonia e prosperidade se desvanece após seu brilho fugaz - o rei é traído por sua esposa e por seu melhor amigo, sua meia-irmã intenta contra sua vida, seu filho o fere mortalmente, a espada Excalibur se perde, a Távola Redonda se desfaz. Restam apenas a lembrança, a esperança e o desejo de não deixar o mito desaparecer, como declara Arthur na canção final de "Camelot":

"Sempre que entardecer, de dezembro a dezembro, / Antes de pegar no sono em seu leito, / Pense em todas as lendas que puder lembrar / Sobre Camelot. / Pergunte a cada pessoa se ela ouviu a história / E diga isso forte e claro, caso ela não tenha ouvido, / Que uma vez houve uma fugaz nuvem de glória / Chamada Camelot. / Agora diga isso com orgulho e alegria. / Onde nunca chovia antes do pôr do sol, / E às oito horas da manhã a neblina já havia se dissipado. / Não deixe que esqueçam que certa vez houve um lugar, / Por um breve e reluzente momento, / Que ficou conhecido como Camelot."

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