Cássio Betine é professor de arte e tecnologia, pós-graduado em tecnologias na aprendizagem e especialista em pesquisa de opinião e planejamento estratégico

Cássio Betine: A arte em questão

Recentemente no Brasil exposições e mostras de arte estão sendo alvo de agressivas manifestações populares. Movimentos e grupos de pessoas estão se unindo e tomando frente a protestos, invadindo museus, ocupando e obstruindo o acesso ao evento, fotografando obras e as compartilhando massivamente em redes sociais, sempre acompanhadas por textos de repúdio demasiadamente ofensivos contra artistas. 
 
O motivo das contestações se dá, ao que sugere alguns manifestantes e líderes de movimentos organizados, ao fato de que algumas obras fazem apologia ao sexo, estimulam a pedofilia e a homossexualidade, insultam religiões e deveriam, portanto, serem expurgadas para que ninguém as pudesse ver. 
 
É razoável e perfeitamente compreensivo que cada um tenha sua própria opinião sobre uma pintura, uma peça de teatro, uma música ou seja lá o que for, pois sempre será um entendimento particular. Toda interpretação é livre e dependerá inteiramente do repertório cultural próprio de cada um. 
 
O ato de querer impor o que se pode ou não ver é censura, e censura precede tirania. As exposições em questão não são obrigatórias. Ninguém é amarrado e levado a força para dentro de um museu. Assim como ninguém também é amarrado e levado para dentro de uma igreja, mas mesmo assim o ensino religioso está presente em algumas salas de aula de escolas públicas.
 
Daí entra em cena outra questão: a política. Um dos principais argumentos que os manifestantes se apegam é sobre o perigo da exposição desse "tipo de arte" para as "nossas crianças", uma vez que alunos de escolas públicas são submetidos a elas, atribuindo então o proselitismo de determinada ideologia cultural como razão das mostras.
 
Penso que há, no meu humilde entendimento, uma grande incoerência neste cenário. Como alguém que repudia a liberdade de expressão e que não respeita a individualidade do outro poderia impor sua forma ou modelo de vida, seu pensamento moral ou ético? 
 
A questão aqui não é discutir o que faz bem ou mal - que é subjetivo. A questão é sobre a liberdade de escolha. Aparentemente, é isso que estão fazendo ao tentarem impedir uma exposição: proibir o que podemos ou não querer ver, escolher, mostrar ou não para nossos filhos.
 
No início do século XX, quando a Semana da Arte Moderna de 22 sofreu grande rejeição conservadora, a qual referiam-se aos artistas vanguardistas como "subversores da arte", "espíritos cretinos e débeis" ou "futuristas endiabrados", não se pensava que hoje, 100 anos depois, a questão voltasse à tona.
 
Embora novelas em canal aberto também exibam cenas eróticas ou de sexo, não se vê movimentos de repúdio tão intensos como esses ocorridos ultimamente contra exposições artísticas, as quais atraem uma quantidade ínfima de espectadores em relação a essas outras mídias. 
 
Resta saber o que está havendo. Uma conspiração para desviar a atenção de alguma outra coisa? Um revival da Semana de 22? Algum marketing reverso elaborado por um gênio da publicidade? Falta de emprego?
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