As águas turvas do Facebook

Decisão do maior jornal do País pode provocar efeito cascata

A decisão da “Folha de S.Paulo”, maior jornal brasileiro, de deixar o Facebook, anunciada na última quinta-feira (8), pode provocar efeito cascata. Outros órgãos profissionais de jornalismo podem seguir o mesmo caminho, pois manter uma página na rede social não é mais vantajoso, nem para empresa nem para o leitor.

E a culpa é do próprio Facebook, que decidiu mudar seu algoritmo, fazendo com que as páginas de jornalismo profissional perdessem evidência na linha do tempo, o que já é bem menor do que as interações, a não ser que se pague à empresa de Mark Zuckerberg. Para o Facebook, esta é uma forma de diminuir a quantidade de notícias falsas publicadas deliberadamente, as chamadas “fake news”, que ganharam ainda adeptos após as últimas eleições americanas. Ou seja: se não pagar à plataforma, aparece cada vez menos.

Ao repercutir a própria decisão, a Folha de S.Paulo ouviu Marcelo Rech, presidente da Associação Nacional de Jornais, entidade da qual a Folha da Região também integra. Rech diz que “as movimentações recentes do Facebook estão afastando as empresas de mídia da plataforma”. Para ele, “se outros veículos chegarem à conclusão de que estão tendo mais desvantagens do que vantagens, poderão seguir os passos da Folha e deixar de postar conteúdo na rede”.

O Facebook, criado para ampliar relacionamentos virtuais, transformou-se em mar lamacento, com águas turvas cheias de lamentações, negativismo e vitimismos, além de espaço impune para denegrir a imagem de pessoas e instituições. Partidos e grupos políticos aproveitam para nadar tranquilamente e poluir ainda mais o ambiente, propagando posições ideológicas que possam beneficiá-los ou santificando “salvadores da pátria”.

O jornalismo profissional, realizado por empresas e repórteres que têm endereço e credibilidade a zelar, é duramente combatido nessas águas turvas, principalmente quando uma das partes não fica feliz com o conteúdo. E muitos seguidores preferem, na maioria das vezes deliberadamente, compartilhar “informações” de sites e páginas no Facebook que interessam sua ideologia política, tentando agregar novos seguidores, recorrendo ao “fake news”. 

Há ainda as páginas no Facebook que tentam fazer o papel de jornalistas, divulgando fatos, vídeos e fotos sem qualquer comprometimento com a verdade, abrindo espaço para pessoas que adoram, com um celular na mão, se fazer de vítimas em qualquer situação. São colaboradores prediletos aqueles que cometem pequenas infrações ou crimes, mas não querem ser punidos, “porque os verdadeiros bandidos estão sempre em Brasília”.

Quando o jornalismo profissional navega por este lamaçal, ilumina o ambiente e joga salva-vidas limpos aos leitores, que passam a receber um conteúdo escrito baseado em fatos e documentos oficiais, não em achismos e visões distorcidas por verdadeiras seitas. Talvez o melhor mesmo seja seguir o caminho da Folha de S.Paulo. Talvez o melhor seja atracar em um porto seguro, no qual os leitores usem a própria embarcação para chegar até ele e usufruir, por conta própria, do jornalismo de verdade.

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