Arnon Gomes é editor-chefe da Folha da Região

Arnon Gomes: Quedas

Diz-se, no jornalismo, que um dos conceitos de notícia tem relação com aquilo que é imprevisto, não óbvio. Por isso, qualquer queda, seja no sentido literal ou figurado da palavra, sempre ganha, com destaque, as páginas dos jornais.

Posso dizer que, nos três primeiros dos meus 11 anos de trabalho na Folha da Região, tive a oportunidade de testemunhar quedas que, por um lado, mostraram-me a dor humana e, por outro, representaram a mudança de capítulos na história de municípios.

Vinte de novembro de 2006. Naquele ano, o Dia da Consciência Negra ainda não era feriado municipal. Mas foi uma data tristemente marcada na vida da dona de casa Carla Gomes Pracídio, à época com 34 anos. De manhã, ela passava de bicicleta pela Ponte Preta, que corta o ribeirão Baguaçu, principal manancial de Araçatuba. De repente, perdeu o controle e caiu, com seu veículo, para fora da ponte. 

Para mim, o episódio não seria tão marcante se não fosse um detalhe: eu vi o acidente acontecer. Naquele momento, estava no local, acompanhado do repórter-fotográfico Valdivo Pereira. Cumpríamos uma pauta cujo tema era justamente a falta de segurança na ponte, motivados por telefonemas de usuários insatisfeitos com a situação daquela rota. 

Profissional tarimbado, que, um ano antes, havia conquistado o prêmio Esso (maior congratulação da imprensa brasileira) ao lado do repórter policial Roberto Alexandre, Valdivo conseguiu registrar o exato instante em que ela entrou na ponte, perdeu o equilíbrio e caiu.

Então um repórter iniciante na Folha, refleti, naquele momento, o quanto é emblemática uma frase de Ricardo Kotscho, um dos maiores nomes do jornalismo nacional: “Lugar de repórter é na rua”. Estar no local do fato fez muita diferença. Serviu para denunciar o quão grave era o problema reclamado por sitiantes e produtores rurais. E mais: ajudar a salvar uma vida. Carla era acompanhada pelo marido, que, desesperado com o que viu, atirou-se no ribeirão, a fim de socorrê-la. Ela estava ensanguentada. Havia caído de uma altura de seis metros e bateu o corpo em ferragens. Enquanto isso, eu, Valdivo e o motorista Deroci Camargo chamávamos uma equipe de resgate.

O caso gerou bastante repercussão. Na Prefeitura, responsável pela ponte, e, na Câmara, onde o governo colecionava aliados, havia gente que dizia que “fabricamos” a cena. Emissoras de tevê foram à velha ponte mostrar a sua precariedade. Um dia depois, ao entrevistar Carla em sua casa, ela me disse: “Foi Deus quem salvou minha vida”. O flagrante registrado me trouxe a expectativa de que o problema fosse solucionado. Mas, confesso, fiquei decepcionado. Tudo o que o poder público fez, passado um mês, foi colocar grades de arame na extensão da ponte. Tempos depois, a estrutura foi interditada. Só. Carla, por sua vez, ficou um longo período sem trabalhar e, pior, traumatizada com uma cena que jamais sairá de sua mente.

POLÍTICA
Um ano depois do acidente da Ponte Preta, eu já estava encarando um novo desafio no jornal. Em 2007, comecei a trabalhar na editoria de Política. Porém, foi no ano seguinte que acompanhei um dos momentos mais tensos da história recente da política regional. Era 2008. Quatro décadas separavam “o ano que não terminou”, título da célebre obra de Zuenir Ventura, que fala de 1968, período em que o mundo virou de ponta-cabeça. Mas a região viveu episódios que marcariam, para sempre, sua história.

Quatro prefeitos foram cassados, com contextos, no mínimo, inusitados. Apenas um deles, Pedro de Paula Castilho, à época governante em Brejo Alegre, conseguiu retornar ao cargo. Em Buritama, Messias Ferreira Mendes perdeu o mandato após sofrer três processos de cassação na Câmara. Em Coroados, Elias Ferreira, que estava no poder após vencer uma eleição que substituía um pleito anulado, foi cassado também. Com isso, a cidade de menos de cinco mil habitantes chegava à marca de três prefeitos em quatro anos. Em meio a tudo isso, um incêndio devastava a sede da Prefeitura. 

O momento mais dramático, porém, estava por vir. Araçatuba, que chegava ao seu centenário naquele ano, testemunhava o fim de uma carreira de mais de 40 anos de vida pública de seu maior cacique político: Jorge Maluly Netto. Em 2 de setembro, a quatro meses de encerrar seu mandato, ele era cassado pelo STF no caso “Banco Interior”.

O dia da decisão representou muito na história do jornal. Naquele 2 de setembro, estreava a seção “Último Minuto”, espaço que existiu por pelo menos quatro anos destinado às notícias que chegavam de última hora. A queda de Maluly, então, inaugurou aquele espaço. A notícia, lembro, chegou à redação por volta das 23h30. Para marcar ainda mais aquela noite, era o dia em que a Folha realizava o primeiro debate com candidatos a prefeito de Araçatuba desde a inauguração de seu canal de televisão, ocorrida dois anos antes. 

Penso que o jornalismo, mais do que uma profissão para se ganhar o pão nosso de cada dia, é um ato de entrega. Os episódios que vivemos, em nosso dia a dia, são marcantes também pelo lado pessoal. Isso por uma simples razão: a reportagem, essência desta profissão, é um ofício que nos permite testemunhar a história e valorizar, acima de tudo, o ser humano.

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