Antenor Rosalino é membro da Academia Araçatubense de Letras

Antenor Rosalino: Dialética

Quando cursava ciências econômicas, fiquei encantado com as explicitações sobre a dialética de Karl Marx, uma das heranças intelectuais dos economistas. O assunto veio à tona, recentemente, quando fui indagado sobre o que é dialética. Aparentemente, a resposta é fácil, mas muitas questões envolvem esse tema ao longo da história.

A dialética, na Grécia Antiga, era considerada a arte do diálogo. Porém, com o passar do tempo, passou a ser a arte de demonstrar no próprio diálogo, tese por meio da qual um determinado argumento seja capaz de definir em detalhes, minuciosa e claramente, todos os conceitos envolvidos na discussão ou nas ideias em questão.

Segundo livros filosóficos, Aristóteles considerava Zenon de Eléa o fundador da dialética. Outros consideram Sócrates de Atenas. Há um episódio curioso. Consta que Sócrates desafiou os generais Lachés e Nícias a explicitarem sobre o que era a bravura. Desafiou também políticos a definir o que era e a relação entre política e justiça para demonstrar a eles que somente a filosofia — por meio da dialética — é que podia proporcionar os elementos indispensáveis para entenderem a essência daquilo que faziam, de suas atividades corriqueiras.

Entretanto, na atualidade, a dialética tem outro significado: trata-se do modo de pensarmos as contradições da realidade, o modo de compreendermos melhor a realidade como essencialmente contraditória em transformação permanente.

O pensador dialético mais radical da Grécia Antiga foi Heráclito de Éfeso, segundo o qual, tudo o que existe está em constante mudança que “o conflito é o pai e o rei de todas as coisas” e que vida ou morte, sono ou vigília, juventude ou velhice são realidades que se transformam umas nas outras.

É antigo esse pensar: “Um homem não toma banho duas vezes no mesmo rio, porque da segunda vez não será o mesmo homem e nem estará se banhando no mesmo rio (ambos terão mudado)”. 

Heráclito negava qualquer estabilidade no ser. Já o filósofo Parmênides acreditava que a essência profunda do ser não muda jamais. Nesse caso, a dialética de Heráclito dá lugar à metafísica criada por Parmênides que acabou prevalecendo sobre a dialética. Eis um exemplo sobre as afirmativas de Parmênides: no fabrico do pão, o trigo é triturado, transformado em pasta, porém não desaparece de todo, passa a fazer parte do pão que vai ao forno e — depois de assado — se torna comestível. Portanto, a essência não muda.

Assim, enquanto os poetas sonham desfolhando até mesmo das folhas mortas belos poemas no fluir dos dias, os filósofos interrogam, questionam e polemizam na angústia do nada, no afã de encontrarem motivos para a existência de tudo e cada qual morre com sua certeza rumo ao eterno da incerteza.

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