Anizio Canola é membro da ALL (Academia Araçatubense de Letras)

Anizio Canola: Um dia lindo demais

Tenho algo muito importante para lhe contar, Aline, meu bem. Ontem foi um dia extraordinário. Você precisava estar aqui para admirá-lo comigo. Nossos amigos sentiram o mesmo. Tudo nos conformes. Direitinho. Satisfação total.

Manhã ensolarada de céu azul, do jeitinho que você aprecia (ideal para conseguir aquele bronzeado). Como se a natureza houvesse renovado a pintura da paisagem, tornando-a mais atraente, colorida, deslumbrante...

O ar estava impregnado de felicidade. Nesse dia incomum, a todo instante você surgia no meu pensamento. Cada gesto, cada detalhe, cada lugar, tudo enfim lembrava você.

Naquela praça sombreada pelo imenso arvoredo, onde você adorava namorar comigo, quase pedi a um casal apaixonado para desocupar o nosso banco predileto. Mas a tempo, lembrei-me de que você não estava mais na cidade. De que adiantaria? Contemplei embevecido o idílio digno do nosso amor de outrora. Ah, que saudade...

Um dia imperdível. Só coisas boas acontecendo. O nosso número de sorte, 36, foi premiado. E eu aqui sozinho, sem ter você para compartilhar tamanha emoção. Achei que nem valeu a pena.

No vaivém agitado do calçadão, suas palavras - "Já compomos uma cidade grande!" - se confirmavam. Mas por ironia do destino, faltava uma pessoa muito especial na multidão. Você.

À noite, na avenida, recordei nossos passeios de mãos dadas, apreciando o movimento. Ninguém quis ficar em casa. O pessoal todo estava ali, em peso. Curtindo o burburinho, na suave ladeira iluminada pelo luar maravilhoso. Nossa turminha, na mesma lanchonete, esbanjava alegria na maior animação. Porquanto ontem tudo era convidativo, romântico, barulhento, festivo, ao agrado de todos os sentimentos. Rebatia-se o forte calor com as cervejas espertas de costume. Olha, tiravam o chope exatamente como você gosta. Senti sua presença ao meu lado, sorrindo. Pura ilusão.

O loirinho levou o violão e a Meire cantou coisas lindíssimas. Aliás, gostaria de ouvir você de novo cantar músicas da Elba. Seu modo de ser, sua voz, seu porte elegante em qualquer traje sempre nos trinques... Transbordando entusiasmo e você distante, não me conformo. Eles nem me viram. Fiquei alongado e logo retornei para casa.

Por isso quero lhe contar desse dia certinho, repleto de passagens gostosas. Um dia como poucos, lindo demais, arrebatador... para os outros! Porque para mim, longe de você, estava desbotado, sem graça, profundamente melancólico.

Hesito ao teclar seu telefone para lhe dizer que, com seu brilho pessoal, tudo isso, tão lindo para os demais, seria mais radiante ainda para nós. Bastaria você estar comigo, numa boa, entende?

Nem sei se você continua no mesmo endereço ou se vai me atender. É difícil crer que tudo terminou se havia tanto amor. Não percebi que nosso filme estava acabando, quando você dizia que ia sair da minha vida. Meu bem, essa impressão incontida de perda que restou, tem me magoado muito. Com absoluta certeza, eu nunca mais vou lhe esquecer.

Mas que culpa tenho eu de pensar assim? Se os dias lindos continuam acontecendo. E tornam mais fortes as recordações daqueles nossos momentos felizes, aumentando a amargura que me consome a alma?

LINK CURTO: http://folha.fr/1.385962

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