Anizio Canola é membro da ALL (Academia Araçatubense de Letras)

Anizio Canola: Sexo sem nexo

O amor está em alta na cotação sentimental, assegurando uma posição de respeito. Na verdade, esse sentimento puro, que une duas pessoas, jamais acusou quedas bruscas na história da humanidade. Pois é imprescindível para a perpetuação da espécie. Apenas, conforme a época, o amor é tratado com maior recato. Nos dias atuais, o desregramento é a normalidade.

Agora é fácil presenciar, em qualquer lugar, cenas amorosas. Algumas das quais pareceriam indecentes em outros tempos, tanto que só ocorreriam veladamente. A razão é simples: o amor está na moda e atingiu um grau de licenciosidade preocupante. Melhor dizendo, isso no Brasil e outros determinados (e poucos) países. Na Europa, no Oriente, o patamar ainda é sério. Outro dia, o Canal Net 053 Art 1 exibiu um filme da Índia, espetacular. 

“The lunch box” (A lancheira) conta uma emocionante história, do cotidiano, envolvente, sem qualquer apelação. E aí? Ora, é difícil encontrar por aqui, produções que não se valham de cenas de sexo e de quebra, palavrões. Friso assim para que não se enganem, no resto do mundo, arte ainda é arte... 

Voltando ao foco aqui, refiro-me ao amor propriamente dito. Na mais pura essência do sentimentalismo humano. As espécies degenerativas de amor, a exemplo dos amores de aluguel, fingidos ou de ocasião, não são aqui considerados, por motivos óbvios, conquanto transbordem por aí.

Explode com intensidade o amor apaixonado. Pelo simples e maravilhoso motivo de amar alguém e ser correspondido.

O estilo de amar muda conforme o tempo. Ah, se florescesse agora o amor sem fronteira de Romeu e Julieta. Seriam por certo jovens iguais a tantos que pintam nos finais de semana nos altos da Avenida Brasília. Romeu pilotando possante moto envenenada, trazendo no costado, agarradinha, a liberada Julieta. Está trajando conjunto Jeans da moda. Porque sempre os meios são irrelevantes, prevalecendo tão somente os fins.

Em suma, continua vigorando dedicar uma música, escrever uma carta de amor ou oferecer uma rosa vermelha ao seu gato ou sua gata. Os programas especializados das emissoras atendem a muitos pedidos do tipo. Atestado cabal de nada substitui um carinho sincero.

Um porém. A maioria das telenovelas, com a desculpa de exaltarem o amor em seus enredos, submetem seus atores a extenuantes maratonas amorosas. Há profusão de beijos técnicos (?!). Em cenas intensas, dão a falsa impressão que a atração física desperta o amor. Quer dizer, invertem a ordem natural da criação.

É da sabedoria popular que “até o gostoso doce de coco, quando é demais, enjoa”. Amar é bom. Mas quando passa a ser obrigação, a coisa engrossa. Desapareceram as situações tradicionais. Parecem forçadas, entrecortando tais idílios. Preocupação exacerbada para as cenas apelativas, até mesmo grotescas. Nas novelas de uma emissora famosa, percebe-se algo esquisito. Parece que tudo deva girar em torno dos mesmos atores. Contenção de despesas? 

Como ninguém mais entra na história, os personagens vão repassando uns aos outros. Até irmão já amou irmã. A saída providencial do autor, evitando incesto, foi torná-los filhos de pais diferentes! Mas o autor que se cuide. Nesse caminhar ele pode se enrolar de vez e ning uém conseguirá desatar. Gente, amor merece mais respeito...

A propósito, segundo “revelações” de Candinha, a mulher de um ator de novela do horário nobre andava desconfiada. Ele ficava entusiasmado nas ardentes cenas amorosas. Embora o próprio e a atriz garantissem que tudo não passava de atividade profissional. Nada sentiam demais, apenas seguiam o “script”.

Um dia a esposa deu uma incerta no intervalo de filmagem, e flagrou ambos numa cena de sexo, no camarim! Ele visivelmente perturbado, levantou-se e explicou:

- “Estamos só dando uma treinadinha...”.

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