Anizio Canola é membro da ALL (Academia Araçatubense de Letras)

Anizio Canola: 'Que raiva, meu!'

Faz seguramente 30 anos. Como oficial de justiça criminal, fui intimar certo morador na rua Alagoas, no Jardim Paulista. Na tarde linda, adornada com as cores do pôr-do-sol, cheguei ao local bem antes do cidadão. Então precisei aguardar no portão. Estacionei a moto sobre o gramado que invadia parte da rua não pavimentada. O calor ambiente realçava a tranquilidade do lugar. Nenhum passante no lugar ermo. Apenas um grupo de crianças brincava na areia branca trazida pelas enxurradas. Só isso arranhava o silêncio da via de movimento escasso. Um cão enorme, tipo pastor alemão, participava latindo com os petizes...

Logo chegou a pessoa que eu aguardava. Concluindo o procedimento legal, colhi sua assinatura no mandado, lhe ofereci a contrafé (cópia) e voltei para a moto. Acionei o pedal de partida. Assim que o ronco do motor fez-se ouvir, senti uma dor aguda na parte inferior da canela direita, quase na junção com o pé. Imaginei, a princípio, ser coice do pedal, ou algo assim. Ao olhar, fiquei apavorado. Era o cão das crianças que me mordia raivosamente! Saltei da moto, que afogou. Ele reassumiu o ar pacato. Reclamei para o seu dono, que ficou admirado:

— O Rex não morde ninguém. É companheiro das crianças!

— Mas minha canela está doendo, falei.

Durante 40 dias passei regularmente por lá, para ver o comportamento do animal. Felizmente, ele continuou sadio. E dócil mesmo com os guris. Alguém me esclareceu que o ronco do motor de moto irrita os delicados ouvidos caninos. Daí a agressiva reação do Rex. Motoqueiro sofre...

Na verdade, casos de raiva animal preocupam. O melhor amigo do homem se torna ameaça considerável. Por isso, deve-se manter a vacinação em dia. Antes que a situação enseje uma paranoia. Na rua, abandonados, ou mesmo no quintal, cachorros parecem suspeitos. Coisa de louco, meu... Felizmente, nunca se aplicou tanta vacina. Problemas são os que vagueiam pelas ruas... A rigor, nem os gatos estão isentos de tal cuidado. Conhecida minha achou um lindo gatinho sem dono. Foi afagá-lo e levou sérias mordidas. Depois ele desapareceu. O jeito foi tomar vacina contra a raiva, ou seja, nove injeções.

A propósito, jornal local publicou, no ano passado, fotos de cães apanhados pela carrocinha (ainda existe?). Enjaulados, esperavam a morte caso não fossem reclamados pelos donos. Enternecedor. Havia até um poodle no meio deles! Um leitor comentou:

— Isso foi empregada que deixou escapar de casa. Quando o dono descobrir, com certeza vai explodir com ela. Que raiva, meu!

Dizem, porém, que os engaiolados até gostam:

— Passeiam de carrocinha, têm água gelada e Bonzo. Já viu, né?

A Comissão Permanente de Combate à Raiva informou que se a doença não se manifestar em dez dias, não haverá mais perigo. Uma pessoa opinou:

— Por isso o prazo de apenas 72 horas para extermínio no Canil Emergencial é errado. E se o animal capturado acabara de morder alguém na rua? Ou atacou outros cães na própria carrocinha? Nesses casos, o controle preventivo estará prejudicado.

Já uma senhora da zona rural ligou para uma emissora local reclamando do pessoal que despeja cachorros “sem dono” por lá...

Cena inusitada aconteceu no Centro de Zoonoses. Uma mulher soube que sua “Bolinha” fora capturada e estava na gaiola, lá. Após pagar a taxa, ela seguiu o encarregado até onde estavam muitos cães confinados.

— Pode chamá-la, senhora.

E ela, confusa com tanto cachorro, exclamou:

— Vem Bolinha, vem...

Para seu espanto, quase todos atenderam, procurando a saída. Pudera, para recuperar a liberdade, até o mais orgulhoso cão não se melindra em se passar por Bolinha...