Anizio Canola é membro da ALL (Academia Araçatubense de Letras)

Anizio Canola: Falar sozinho

Na tarde de verão, o homem alto, bem-apessoado, caminhava pela calçada da rua Prudente de Moraes, no sentido da rua Princesa Isabel. Esse trecho central é sempre bem movimentado. Porém, naquele raro momento, o executivo típico ia sem topar com ninguém. Ao passar defronte do escritório do dr. Kajimoto, começou a falar sozinho. 

Coisas particulares, com certeza, sem qualquer sintoma de maluquice. Sei que muitos duvidariam de seu juízo perfeito. Mas acredito que atitudes desse tipo possam ocorrer com qualquer indivíduo. Numa frequência maior, talvez, do que se possa imaginar. Devido à agitação natural desta época desenfreada. Portanto, antes de criticar alguém, convém reavaliar o próprio modo de proceder.

Cantar em público pega bem. Não causa espécie, o camarada arranhar um sucesso sertanejo, circulando pelo Calçadão. Mas insistir numa ária de ópera é arriscado demais... Falar alto, estando só, é realmente complexo. Não significa que o cidadão esteja esclerosado ou acuse desequilíbrio mental, embora suscite desconfiança. 

Nos supermercados é comum encontrar gente agindo assim, embora francamente insuspeita. A marcha alucinante dos preços faz com que a pessoa questione sozinha e em voz alta. Como dizia a jovem senhora, de lindo vestido azul, vendo a pilha de latas comestível:
- “Falei para o Jorge que jamais pagaria aquele preço da semana passada! E não vou pagar, mesmo. Agora subiu 30%! Coisa de louco, senhor Presidente...”.

A turbulência do momento gera reações humanas tão controvertidas. Não se deve ignorar mais nada. É tocar para a frente, que atrás vem gente. Afinal, viver é preciso. De um jeito ou de outro...

Falar sozinho é coisa peculiar do ser humano, sob certas condições. O incomparável escritor Rubem Braga abordou o caso na sua crônica intitulada “Desculpem tocar no assunto”. Eis um trechinho sugestivo:

“...Outro dia vi um velho na rua; andava lentamente e movia os lábios, como quem fala para si mesmo. Devia estar conversando com algum amigo morto. A certa altura ficou quieto, com ar contrariado de quem está ouvindo alguma coisa de que não gosta. Depois recomeçou a falar com mais veemência. Súbito, calou-se outra vez. O morto estava lhe dizendo poucas, porém boas. Ele tinha o ar ofendido...”.

Por falar em atitudes estranhas, lembro-me de uma realmente marcante. Certa vez acompanhei um colega oficial de Justiça, em diligência na casa de um bancário aposentado, pertinho da Estação Rodoviária. Sabíamos de antemão de suas esquisitices, exigindo cautela na sua abordagem. Morava sozinho, a julgar pela desarrumação. Objetos largados por todo canto. Uma pilha de livros sobre o sofá... A chamada bagunça. 

Aliás, especialmente um livro deixado aberto sobre a mesinha de centro, despertou nossa atenção. Naturalmente ele havia interrompido a leitura, quando lá chegamos. Uma hora que ficamos na sala, longe dele, ao folhear o aludido livro, constatamos, com surpresa, que em todas as páginas, até aquele ponto, as palavras estavam todas sublinhadas a lápis. Deduzimos depois que era um expediente daquele homem solitário. Marcava sua leitura, sublinhando cada palavra que lia.

Nunca soube de outro caso igual. Por extravagâncias assim dizem mesmo que “cada louco com sua mania”. E ponto final.

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