Ana Cristina Cenci é editora do caderno Vida da Folha da Região

Ana Cristina Cenci: A menina e o gravador

Quando eu era criança, vivia dentro do jornal, que é, como dizia meu pai, Genilson, seu filho mais velho. Escrita e curiosidade são duas características muito marcantes em minha personalidade. Assim como o gosto por animais. 

Passava tardes e mais tardes na redação, na oficina, no paste up, na digitação e, quando podia, acompanhava as linotipos e impressão à noite também. Tempos em que os computadores eram pouquíssimos, resumiam-se a algumas máquinas e suas “composers”, onde eram impressas as matérias que seriam “coladas” nas páginas...

Se não me falha a memória, era final dos anos 1980. Podíamos andar de bicicleta pela cidade inteira. Perto de casa, no bairro Higienópolis, mais precisamente numa das esquinas da rua Cristiano Olsen com a Duque de Caxias, inaugurou o primeiro pet shop da cidade, com banho e tosa. Se não estou errada, eu devia ter entre 8 e 9 anos, mas a memória pode estar me pregando alguma peça, pois já se foram quase 30 anos da que considero a mais importante matéria da minha carreira na Folha da Região.

Falei com o meu pai sobre o pet shop e que queria fazer uma entrevista com a dona do local, pois era uma novidade na cidade e ainda, como não pensar em estar lá dentro do banho e tosa, com todos aqueles cachorrinhos lindos, peludinhos, cheirosos e enfeitados? Queria saber como funcionava, conhecer, entender, saber quais cachorros podiam tomar banho e, enfim, saciar a minha curiosidade infantil. Peguei minhas cachorrinhas, Kelly e Laika, mãe e filha, que não eram peludinhas como os poodles que via saindo de lá, e as levei para um banho para poder conhecer a minha “fonte”, a dona do banho e tosa.

Fiquei lá vendo o banho, conversando, entendendo, conhecendo... xeretando. Aliás, esse é o espírito do jornalista: ser curioso! Peguei minhas cachorrinhas lindas e cheirosas e fui caminhando com elas até o jornal que funcionava na rua Afonso Pena, 638, naqueles tempos.

Filha de peixe que sou, pedi um gravador, daqueles enormes de fitas cassete, contei, empolgada, ao meu pai sobre a minha “aventura” e voltei para casa ansiosa pelo dia seguinte. Meu pai tinha pedido para que eu gravasse a entrevista. Escrevi as perguntas junto com ele, que foi me orientando sobre o que seria mais importante. Garanto: foram muitas perguntas.

Peguei minha bicicleta, no dia seguinte, e fui até o banho e tosa tentar conversar com a proprietária e ela me atendeu, sem marcar horário, para minha surpresa. Gravei a entrevista, fazendo todas as perguntas e mais algumas que foram surgindo conforme fomos conversando. Terminado o trabalho, voei baixo para o jornal para pedir ao fotógrafo que fosse registrar imagens do local. E é claro que eu fui junto!

Meu pai me ensinou o que era decupar uma entrevista naquele dia. Eu transcrevi tudo o que estava gravado ali e fui para a redação entregar para que fosse editado. A entrevista seria publicada no suplemento infantil, a “Folhinha da Região”. Pode não ser um assunto grandioso, ou um fato marcante, mas recordar esses passos me faz lembrar, diariamente, como vim parar na redação, onde fui desde estagiária a repórter, passando, inclusive, pela reportagem e edição do suplemento infantil, Cidades, Opinião e, atualmente, Cultura. Foi ali, naquele dia, que percebi que havia encontrado o meu caminho: o jornalismo. 

E desde então, inúmeras pautas relevantes e reportagens marcantes foram feitas e impressas nestas mesmas páginas que, dia após dia, levam informação com responsabilidade para toda a região.

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