Jean Oliveira é jornalista, bacharel em turismo e funcionário público municipal em Araçatuba

Amor e tempo: questão de sanidade, por Jean Oliveira

Jorge acordou sentindo-se estranho. Parecia que o mundo tinha se dilatado. O quarto parecia maior, a casa parecia ter o dobro de tamanho e as emoções pareciam exponencialmente mais fortes. Ficou deitado em sua cama, olhando para o teto. Era domingo, dia de preguiça. Dia de pensar.

Professor de filosofia, o velho senhor não estava sabendo lidar com a aposentadoria, apesar de se sentir plenamente apto para encarar a maratona de aulas na faculdade; coisa que fez com maestria nos últimos 45 anos. E agora? Era apenas um quase bisavô jogado em um mundo em que cada vez menos se reconhecia. Por isso, tudo lhe parecia maior, em dimensão e significados. Esta mistura de sentimentos lhe diminuía diante de tudo.

Depois de bom tempo parado, olhando para o nada, Jorge resolveu finalmente encarar a vida. Levantou-se lentamente, caminhou a passos lentos e se espantou com a própria imagem refletida no espelho. Viu um velho, que ele não tinha percebido ainda. No cotidiano de trabalho, leituras e correria com a família, não tinha percebido a força do tempo sobre si.

Deteve-se olhando a si mesmo, como se quisesse se convencer de que aquela imagem seria real. Ao refletir sobre si mesmo, lembrou-se do filósofo Blaise Pascal que afirmava que o homem é maravilhoso e miserável. Maravilhoso porque consegue pensar, ter consciência de si mesmo. E é miserável por isso mesmo, por ter a consciência sobre si, sobre o tempo e a morte.

E esta era a miséria do velho. Ele se percebia no fim de seu ciclo produtivo, sem ter para onde ir. Não tinha mais as aulas. Moveu-se novamente de forma de vagar. No banho, refletiu sobre a família. Os dois filhos morando em outros estados, a esposa também já aposentada.

- Bom, agora seremos dois velhos em casa, pensou. Acabou o banho, trocou-se com alguma dificuldade e passou pelos quartos, sala e cozinha procurando pela esposa. Achou um desaforo ela ter saído, tão cedo, pela manhã de domingo, sem chamá-lo.

- Deve ter ido à missa. Egoísta. Tudo bem, que não gosto de igreja e ainda bem que, desta vez, não me chamou. Mas deveria ter me avisado. Ela me conhece, deveria saber que este troço de aposentadoria me deixaria triste; disse Jorge em voz alta, praguejando. 

Neste momento, fora amparado por uma de suas netas, que serviu o café com leite e o colocou depois em frente à TV. Ele ficou ali praguejando e esperando Lívia, sua esposa voltar da missa. Estava disposto a falar uns desaforos para ela. Não aguentava mais, nesta altura da vida, um destrato deste.

Chegou a hora do almoço, e nada da esposa. Novamente foi sua neta Renata quem serviu o prato. O velho professor perguntou da esposa. A jovem, com olhos tristes, colocou a mão em seu ombro e disse:

- Vô, ela morreu faz oito anos. O senhor sempre esquece.

- Como morreu? E agora, como vou ficar com esta aposentadoria. Me aposentaram, soube disso?, retrucou o velho.

- Faz vinte anos, vô. Isso faz vinte anos!, respondeu Renata, já sem paciência.

Jorge passou a tarde melancólico. Como era viúvo e não se lembrava? Como estava há tanto tempo sem trabalhar se tinha certeza que, na sexta-feira mesmo, participou da festa de despedida na faculdade. Tinha certeza de que, se achasse a camisa que usou no dia, ainda estaria lá a mancha do bolo. Ai, esfregaria na cara de todo mundo. Eles que estavam loucos.

Sabedor que um ser humano sem entusiasmo é um cadáver ambulante, preparou um plano. Assim que anoitecesse, iria ao quintal, acharia a camisa e iria descobrir que tudo aquilo era uma farsa. Talvez um trote da família para brincar com sua aposentadoria.

E assim que o sol foi dormir, Jorge abriu a porta dos fundos, em busca da camisa. Provaria a todos que era mais esperto. A esposa deveria estar escondida, rindo dele. Foi tateando as paredes, as cadeiras, a mesa. Não queria acender a luz para não revelar seu plano secreto. Acharia a camisa e provaria. Quando finalmente achou o cesto de lixo, ouviu a voz da esposa. Sentada à mesa, ela, sorrindo, disse:

- Jorge, Jorge, sempre procurando provar que está certo. Você nunca muda.
Ele sorriu triunfante.

- Ah, estava aí, danada. Sabia que vocês estavam me enganando. Você sempre brincado, achando que sou bobo.

Deu um longo abraço em Lívia, e teve a feliz redescoberta do cheiro dela. Sentiu-se em paz. Não era um velho louco. Tinha desmascarado a todos. Renata relatou a todos, no outro dia, que tinha encontrado o avô no quintal. Escondidos atrás do pé de manga, rindo como crianças, Lívia e Jorge estão felizes por conseguirem se esconder de todos e finalmente terem tempo para voltar a serem um do outro, sem compromissos.

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