Amanda Martinelli Vitro é psicóloga e atua em clínica e escola particular de Araçatuba; formada pela FEA, pós-graduada em neuropsicologia

Amanda Martinelli Vitro: O preconceito é compactuar com a morte

O HIV/Aids é uma doença crônica e que ameaça a vida. “Ajustá-la” é um processo ao longo dos anos. Além disso, é preciso abordar uma série de questões comuns às pessoas que sofrem de uma doença desse porte e potencialmente fatal: como se deve viver o resto de uma vida? O que se deve fazer diante da probabilidade de morte?
 
Só no ano passado, o Brasil tinha 830 mil pessoas convivendo com o HIV. Ainda em 2016, 48 mil pessoas contraíram o vírus de alguma forma. O número de mortes chegou a 14 mil. Todos esses dados são da Unaids, o Programa Conjunto das Nações Unidas sobre HIV/Aids. Mas nem tudo é má notícia. Segundo esse mesmo programa, mais da metade de todas as pessoas que vivem com HIV no mundo agora tem acesso a tratamento. E desde 2010, as novas infecções entre mulheres jovens em todo o mundo diminuíram 17%.
 
A descoberta da infecção traz muitos dilemas emocionais: choque, raiva, negação, culpa e ansiedade são apenas alguns deles. Aí vem à cabeça uma série de dúvidas: será que alguém divulga o “sorostatus” para os outros? Como deve enfrentar as preocupações imediatas e práticas de estigmatização, como, por exemplo, o possível abandono do círculo social, a possível perda de trabalho? 
 
De qualquer forma, o “ajuste” da vida ao HIV/Aids nunca é fácil. As pessoas que são jovens, sem informação, são bastante vulneráveis... elas se utilizam intensamente da fuga ou acreditam que têm um baixo nível de apoio social. Fora isso, existe a ansiedade e outros problemas, como distúrbios do humor; psicóticos e ainda uso de drogas. Os estudos mostram que cada um desses problemas chegam de diferentes formas.
 
Mas tem outra coisa que preocupa: a falta de vontade de ser testado. Apesar de um teste de sangue, confiável, estar disponível desde meados da década de 1980, muitas pessoas evitam passar por esses exames. Esse teste está disponível no País todo. Em Araçatuba, ele pode ser feito no Ambulatório DST/Aids, o “Postão” da rua Afonso Pena. É de graça e o resultado sai na hora. Talvez esse seja o medo... de uma resposta imediata a uma dúvida que pode trazer necessidades de “justes” por uma vida toda.
 
É importante ressaltar que, por uma questão de prevenção a novas transmissões, sempre deve haver o incentivo para as pessoas fazerem um inventário do seu risco de HIV. A prevenção é o melhor caminho e o medo pode dificultar o sucesso de um tratamento físico e emocional. O preconceito é compactuar com a morte, seja de qual parte vier!
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