Alice Maria da Silva é membro do grupo experimental da AAL (Academia Araçatubense de Letras)

Aline, por Alice Silva

Foi numa tarde chuvosa, num café bastante movimentado, que a conheci. Era uma moça simples, nem bela nem feia, que servia as mesas e o balcão com seu uniforme impecável e um sorriso plastificado no rosto. Os cabelos tinham sempre o mesmo corte, as unhas pintadas de esmalte suave, assim como o batom. Era magra, porque comia pouco mesmo; seu salário era baixo; mal cobria suas despesas. 

Os patrões não tinham queixa e nem elogios à sua pessoa. Passava a impressão de que dinheiro e reconhecimento para ela pouca importância tinha; mas isso não era verdade. Tinha era muito medo do desamparo; de ficar desempregada e passar necessidades. Fazia cara de paisagem quando era contrariada, nunca respondia mal e tocava em frente. 

Era de poucas palavras a mocinha; morava sozinha num apartamento antigo e feio. Seus vizinhos quase não a viam: era do trabalho para casa, de casa para o trabalho. Esta era sua rotina. Tinha seus pequenos prazeres aquela moça. Gostava de observar seus clientes, principalmente os casais. Em casa, já deitada, ficava a imaginar como seria a intimidade deles... Ela já tinha vinte três anos, e nunca havia namorado. Outro prazer que ela tinha, era ir até a ponte sobre o lago próximo ao café e ficar atirando pequenas pedras no lago. Os círculos que se formavam a encantavam; sorria como uma criança a pobre moça. 

Amava também ir à floricultura e, quando sobrava algum dinheiro, levava flores para casa, toda feliz. Frequentava também, quando havia tempo, agências de viagens. A atendente da agência próxima ao café já entortava o nariz ao atende-la, pois sabia que a pessoa não tinha condições de comprar o que buscava. Levava os panfletos dos lugares que desejava conhecer para casa; fechava os olhos e sonhava. 

Contatos familiares já não tinha há muito tempo. Então falava com os pombos da praça, com o gato da vizinha; no trabalho, era séria e compenetrada, mesmo porque ali não havia tempo para conversa; o trabalho era intenso, exaustivo. Certo dia já bem tarde, lavando o banheiro de seu pequeno apartamento, sentiu que duas peças do rodapé estavam apenas encaixadas, como uma passagem secreta. Com cuidado as retirou, e com sua mão trêmula de moça curiosa apalpou o espaço, alcançando um pequeno compartimento que guardava uma caixa de metal retangular. 

Seu coração batia descompassado de curiosidade: o que teria ali? - pensou. Abriu a caixa, e se deparou com uma carta e um pacote que estava envolvido em plástico escuro empoeirado. A carta escrita a mão era endereçada a quem encontrasse o volume, que fizesse daquele tesouro um bom proveito. Era um presente anônimo, economias de toda uma vida de alguém que ali vivera por muitos anos. Só; como agora Aline ali vivia. 

Sonhadora e sensitiva que era, ela não teve dúvidas que recebia um presente do céu. Se lembrou do dia em que visitara o apartamento pela primeira vez, buscando moradia. Viu outros bem melhores e bem localizados pelo mesmo preço, mas optou por aquele, e não sabia explicar por quê... 

Agora estava aí a resposta: o seu presente a esperava ali. Abriu o pacote, e seus olhos viram um montante de cédulas que ela jamais imaginou conhecer. Seus olhos brilharam, e o dinheiro fez o seu papel: transformou aquela moça. Para melhor ou para uma pior pessoa? Nenhuma das alternativas. Colocou o rodapé novamente no seu lugar, encaixado como estava. E com um sorriso largo fez suas malas naquele momento, e partiu. Vestiu seu melhor vestido, e foi tratar de viver enquanto podia.

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