Aline Galcino é editora de Cidades e Economia da Folha da Região

Aline Galcino: Holofotes para o oeste

Em 2006, meu primeiro ano na equipe de reportagem, o setor sucroalcooleiro era a principal pauta da editoria de economia. Além das lavouras de cana-de-açúcar ocupando lugar de antigas pastagens e até áreas antes destinadas aos grãos — em crise por conta de preços baixos e endividamento de produtores — surgiam projetos de reativação e construção de usinas para a região, que ficou nacionalmente conhecida como a última fronteira para a expansão da cana no Estado.

A Udop (União dos Produtores de Bioenergia), na época identificada como Usinas e Destilarias do Oeste Paulista, confirmava a instalação de 40 novas unidades no oeste paulista até 2010, um investimento garantido de US$ 5,6 bilhões e a geração de 150 mil empregos em quatro anos. A esse número, somavam-se as 62 usinas em operação na região, que processavam, juntas (dados da safra 2005/2006) 85.852.000, toneladas de cana.

Os temas para reportagem se multiplicavam. Migrantes de vários estados do País se instalaram na região, pois a oferta de empregos era sempre maior do que a disponibilidade de mão de obra, unidades de ensino recebiam investimentos para abertura de vagas para qualificação de profissionais, empresários com negócios já consolidados e empreendedores procuravam áreas e apoio de prefeituras da região para implantação de novos serviços, parques industriais atingiam 100% de ocupação e o ciclo virtuoso estava instalado. 

Idealizada pela Safra Eventos e Udop, a Feicana (Feira de Negócios da Agroindústria Canavieira de São Paulo), mais tarde denominada Feira de Negócios do Setor de Energia (agregando também a Feibio), tornou-se vitrine do setor para a região centro-sul e colocou Araçatuba no eixo nacional de eventos, movimentando comércio e ramos afins, como hotelaria e gastronomia, que também se expandiam. Pela feira, passaram ministros, secretários e os maiores consultores da área, além de entidades de renome, como a Embrapa (Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária) e consultoria Datagro, a principal do setor, que se tornaram parceiras da feira.

Nos dias de discussão dos novos rumos e demandas do setor sucroenergético, Araçatuba era destaque nacional. Os principais veículos de comunicação enviavam equipes ou correspondentes para acompanhar as novidades aqui debatidas ou lançadas. Um exemplo foi a assinatura do edital para compra de 20 comboios com barcaças e empurradores para fazer o transporte do etanol pelo rio Tietê, que trouxe para a capital do boi gordo a ex-presidente da República Dilma Rousseff, na época ministra da Casa Civil, e o ex-presidente da presidente da Transpetro, subsidiária da Petrobras, Sérgio Machado. Depois do edital, Araçatuba ganhou uma importante indústria naval, o Estaleiro Rio Tietê, mas o caso merece um artigo à parte.

Foram pelo menos dez edições de Feicana, entre 2003 e 2012, com ápice nos anos de 2007 e 2008, quando as negociações realizadas durante o evento chegaram a R$ 1,5 bilhão. Infelizmente, a crise mundial de 2008 freou o crescimento do setor e a expectativa de apenas adiar por um ano a realização do principal encontro de bioenergia não se consolidou. A feira não foi retomada, mas as discussões sobre o setor energético continuam por meio do Congresso Nacional de Bioenergia, organizado pela Udop e que chega neste ano à 10ª edição.

O boom passou. Também não estou mais na reportagem, no entanto, como editora do caderno Cidades, acompanho a acomodação do setor, como era prevista. Os “aventureiros” foram “engolidos” por grandes empresas e grupos econômicos. Mas a reivindicação por políticas públicas e a priorização do etanol como combustível é a mesma há anos. E, mesmo em recuperação, as cidades continuam se beneficiando dos empregos e renda advindos desse segmento, que, acredito, ainda renderá muitas notícias positivas para a região.

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