Alice Maria da Silva é membro do grupo experimental da AAL (Academia Araçatubense de Letras)

Alice Maria da Silva: Cotidiano

Dez da noite, rua ainda bem movimentada; umas das saídas da cidade. Muitos barzinhos ainda funcionando, cheios de estudantes, alguns com música ao vivo. De repente, alguns carros diminuindo a velocidade, tentando desviar de algo, ou alguém no asfalto escuro. 

Ela também diminui a velocidade, e consegue ver o que está acontecendo. Um gato foi atropelado; um carro passou por suas pernas. Ele tenta se levantar com as patas dianteiras, num esforço cruciante, lançando miados desesperados na noite escura. Depois de um dia pesado de atividades, se deparar com uma cena dessas... A maioria das pessoas diminuía a velocidade e depois seguia em frente indiferente. Dois carros pararam o tempo suficiente para arrastar o bicho para o meio fio antes que ocorresse algum acidente. 

A agonia do bicho duraria ainda algum tempo; quase nada havia a fazer. Pelo sangue escuro e abundante que corria pelo asfalto, sim, duraria pouco tempo a agonia do pobre coitado. E ela seguiu com sua dor. Não havia quem a arrastasse para o meio fio, ou, de alguma forma, atentasse para o seu lamento mudo naquela noite. 

Teve vontade de gritar, chorar alto, pelo gato, pelo que está se tornando esse mundo. Mas nenhuma ação se seguiu: nenhum tiro de misericórdia, nenhum arrastar para a vida, afago ou palavra consoladora. Só o eco triste daquele miado desesperador. As lágrimas desciam quentes pelo seu rosto, como o sangue do bichano no asfalto frio, lhe trazendo um certo conforto. Precisava parar de pensar na agonia do bicho e continuar seu trajeto; já estava bem perto de sua casa. 

Pela rua movimentada as pessoas seguiam, cada um para o seu destino, e a dor era dela, que vivesse a sua dor! Imaginou um outro lado, sem dor, sem sofrimento, onde cria que um dia estaria, e desejou que fosse logo!O fardo estava por demais pesado; desejava outra viagem, com outra bagagem. E assim prosseguiu rumo ao seu ninho. Alguns minutos mais e chegaria em sua casa. Abre a porta e um cheiro de arruda, alecrim e hortelã invade suas narinas. 

Fecha os olhos e deixa que aquele aroma de ervas benditas mudem a energia da sua mente. Ervas das mãos do Criador, que curam, restauram, equilibram. Tivera a ideia de cultivá-las e agora estavam ali para salvá-la. Bota água na chaleira e faz um chá bem forte, que sorveu pausadamente, desejando esquecer tudo que se passou naquele dia e, especialmente, a agonia do bichinho entregue ao seu próprio destino. Um sono reparador haveria de vir. E um outro dia, com boas notícias, boas ações. E vida que segue.

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