Alice Mara é membro do grupo experimental da AAL (Academia Araçatubense de Letras)

Alice Mara: Uma noite na academia

Noite de verão, terça feira de lua cheia. Eu e meu grupo nos reunimos na casa do saber. Não aguentamos mais preencher a vida com internet, programas sem criatividade na TV, noticiários, bares. Somos um grupo pequeno e fiel, amante das letras, que aprende sempre e nunca o suficiente. 

Trazemos coisas boas na bagagem: não desmerecemos ninguém. O tempo passa depressa ali, o difícil é me concentrar no que acontece no momento. Explico: vêm para mim as lembranças de minha infância e juventude vividas naquele imóvel. Fortes lembranças do espaço em que nos reunimos, que outrora foi o quarto de minha avó paterna que ali fez sua passagem. 

Depois foi o quarto de costuras de minha mãe. Fazia ali meus deveres escolares, ouvia novelas de rádio e depois tirava minhas reflexões das conversas de minha mãe e tias, auxiliares e freguesas que ali chegavam. Já nasci meio velha; sempre gostei de estar no meio do assunto dos adultos. Esta sala é agora o meu refúgio da tensão que a maturidade teima em me mostrar. Ao amigo e coordenador do grupo, que me apresentou à academia, minha eterna gratidão. 

Ele foi salvo pelas letras, é assíduo colaborador; coloca sua alma em tudo que escreve. Ama o saber e convida sempre e com entusiasmo os amigos para conhecer o grupo. Quem não aceita o convite só perde; nossos sensíveis irmãos poetas têm muito a ensinar. Mas voltemos aquela noite de terça feira, quando já nos preparávamos para ir embora. 

Uma jovem voz feminina, lá fora, ecoava muito alto, num tom irritado, colérico. Palavrões e insultos não economizava, dirigindo-os a um rapaz cabisbaixo, que nada respondia, deixando-a ainda mais irritada. Cada um de nós teve uma reação diante da cena: alguns riram, outros balançavam a cabeça indignados. 

Eu confesso que fiquei assustada e com muita pena daquela moça. Ao chegar mais próximo da cena, ouvi ele dizer: - calma Marta! Eu vou dar um jeito. Mas como ela poderia manter a calma naquela situação? Suas mãos trêmulas balançavam um resultado de exame com resultado positivo para gravidez. Ele havia prometido à ela deixar o vício e procurar com mais diligência um emprego. E mais uma vez se deixava levar pelas pedras. 

Pedras no caminho, malditas, demoníacas, que despertavam nele o que havia de pior. Todo aquele insulto que recebia ali, ele sabia ser merecedor. Fragilizado diante da histeria de Marta, desesperada e só, lhe faltava a palavra. Falta de aviso não foi para Marta, da família, dos amigos. 

Todos foram se afastando dela, à medida que ela teimava em prosseguir no relacionamento doentio, onde se dava muito e pouco recebia. 

Confiou no seu amor, na sua intuição, e realmente por algum tempo ele parecia forte e determinado a se livrar do vício. Fomos embora, cada um de nós levando sua impressão daquela cena. Meu coração no peito seguiu apertado; uma parte enlevado pelo bom ambiente que compartilhamos, aprendendo sempre um pouquinho mais. Outra parte condoído e contrito, pela impotência diante da situação lamentável daqueles jovens. A rua escura entre nós, dividindo: ignorância e saber, conflito e serenidade, tensão e paz, amor e ódio.

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