Sanches: infelizmente, casos como este estão chegando a cidades do Interior

A nova mentalidade do crime organizado

Facções encontram, nas companhias de segurança, volume financeiro maior

Para o advogado José Roberto Sanches, mestre em direito e especialista em administração e segurança pública pela Academia de Polícia Militar do Barro Branco, o crime não tem fronteiras e as organizações criminosas são as culpadas disso. “Este tipo de assalto que ocorreu na segunda-feira (16) foi por uma questão de oportunidade, ou seja, onde tem dinheiro. Infelizmente, casos como este estão chegando a cidades do Interior”, disse, referindo-se ao roubo de cerca de R$ 10 milhões da Protege, transportadora de valores com sede em Araçatuba.

Sanches acrescentou que, antes, os alvos das quadrilhas eram os bancos. “Com a facilidade de fazer serviços e transferências pela internet, a quantidade de dinheiro nas agências diminuiu e, com isso, as empresas de valores têm sido os pontos preferidos pelos criminosos”, explicou. 

Neste caso, um fator que predomina nas facções, segundo o especialista, é o planejamento. “Uma das principais fontes de arrecadação destes grupos são os assaltos e, para cometerem este crime, eles planejam meses e distribuem funções para cada membro, com base na hierarquização. O desenvolvimento destas organizações é igual a uma empresa.”

Prova disso, na visão de Sanches, é que, no caso do mega-assalto ocorrido em Araçatuba, os criminosos se dividiram em grupos, no qual cada um teve uma função. “Em cada ponto, seja próximo ao quartel da Polícia Militar, ou na empresa de valores, havia pessoas com funções específicas e com armamento pesado. Por mais que se queira planejar uma ofensiva, é muito difícil saber quando isso acontece, a não ser quando vaza uma informação”, ressaltou.

CONFRONTO
O especialista analisou que, diante da situação, a inteligência e o método utilizados pela PM são as melhores escolhas do que o combate corpo a corpo com a quadrilha. “Nessa situação, se houvesse o confronto, a situação poderia ser pior, visto que as armas usadas pelos bandidos eram muito superiores às utilizadas pela corporação”, destacou.

Para ele, o melhor meio de afastar as pessoas das organizações criminosas é cortar o dinheiro destes grupos. “As quadrilhas movimentam de R$ 200 a R$ 300 milhões por ano. Há várias formas de monitorar a movimentação. As políticas públicas também têm sua parcela no combate ao crime. Quanto mais a população estiver afastada destas quadrilhas, que se infiltram em comunidades por meio de doações, menos casos acontecerão”, observou.

Outro fator citado pelo especialista é o sistema penitenciário, hoje bastante debilitado. “Não temos uma política neste sentido. O preso que não é de organização acaba mantendo contato com membros destes grupos e se infiltrando. É o sistema produzindo um monstro, multiplicando pessoas dentro destas facções.”

O tráfico de drogas também é a porta de entrada de pessoas nestas organizações. 
“Temos visto que as principais facções criminosas têm lutado, entre elas, pelo domínio do tráfico de drogas no País e, com isso, precisam de muita gente. Infelizmente, não temos empregos suficientes no Brasil e, com isso, os jovens acabam se envolvendo neste crime, pois a arrecadação é maior do que um mês trabalhando em um emprego formal”, finalizou.

LINK CURTO: http://folha.fr/1.369195