A independência e as reservas

Para andar sozinho, não basta simplesmente querer

Não é novidade a existência de movimentos separatistas no Brasil — aqueles que propõem a independência de uma região administrativa ou de um Estado do resto do País. Essas manifestações, em geral, vêm carregada de certa dose de orgulho da localidade em que se vive, da observância de aspectos culturais distintos da maior parte do território nacional e, na maioria das vezes, do entendimento de que, sob o ponto de vista econômico, certa região é forte o suficiente para caminhar sozinha. 

Ao que parece, estes princípios têm norteado grupos defensores da autonomia de São Paulo. No final da semana passada, o presidente do Movimento São Paulo Livre, Flávio Rebelo, esteve em Araçatuba para visitar o Ilan (Instituto Liberal da Alta Noroeste), onde expressou sua ideia de que o estado mais rico do País pode ser um território independente. Numa análise mais técnica da questão, os movimentos pró-independência se apegam à insatisfação com a distribuição dos tributos, de acordo com o que entregam à União. Movimento semelhante existe no Sul do Brasil, este defensor da independência dos estados do Rio Grande do Sul, Paraná e Santa Catarina.

A caminhada solo, entretanto, não parece ser tão simples. Tudo bem, um Estado ou uma região podem ser boas geradoras de riquezas e empregos, além de recolhedora de impostos. Por outro lado, o que dizer do custo para criar e manter uma estrutura administrativa de um novo país, com poder Executivo, Senado, Câmara, tribunais de Justiça e Banco Central? Como ficariam as aposentadorias de pessoas desses estados? O velho ou o novo país que gerenciaria? 

Este, certamente, seria um fator gerador de grande impasse. Afinal, o sistema previdenciário é um dos maiores gargalos para o equilíbrio das contas públicas do País. Por fim, não se pode esquecer de citar as eventuais barreiras comerciais que seriam criadas com outros estados brasileiros, além do reconhecimento de outras nações, principalmente potências capitalistas. Estas são apenas algumas das interrogações.

A onda da separação ganhou força com o recente plebiscito sobre a independência da Catalunha da Espanha. Que o Brasil é um País de dimensões continentais e isso o faz uma nação difícil de governar e com muita desigualdade, não há dúvidas. Mas, para andar sozinho, não basta simplesmente querer. 

Seguramente, São Paulo ou o Sul conseguiriam mostrar condições de ser independentes se fossem territórios imunes ao “jeitinho” de seus representantes públicos. Ora, para a corrupção institucionalizada no País, muito houve de contribuição dos paulistas, gaúchos, catarinenses e paranaenses também. É fato que onde não há corrupção e onde ela é ao menos mais branda, sobram caminhos e recursos para o desenvolvimento.

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