A força do crime organizado

Nos últimos anos, não têm sido poucas as ações de facções criminosas em cidades do Interior

Araçatuba começa a semana tomada pela insegurança. E isso não apenas pelo mega-ação criminosa ocorrida na madrugada de segunda-feira (16), que resultou em um assalto à empresa de transporte de valores Protege, no ataque a tiros ao quartel da Polícia Militar, na morte de um policial e no incêndio a veículos e moradias. Para muita gente, cenas de guerra ou, no mínimo, comparadas ao cotidiano violento do Rio de Janeiro que, certamente, nunca ocorreram em toda a história local.

A sensação de falta total de proteção se explica, portanto, pelo episódio que caracteriza a fragilidade do Estado no tocante à segurança pública e perante o crime organizado. Sem estrutura suficiente para conter a ação planejada dos bandidos, a PM, que ficou com parte do seu arsenal comprometido, precisou contar com apoio de oficiais de outras cidades da região. 

Todo o efetivo está mobilizado atrás dos criminosos profissionais, que, no entanto, já tinham plano de fuga bem estipulado, podendo, assim, ameaçar a tranquilidade de qualquer morador de Araçatuba e município vizinho. Com isso, sobra terreno fértil para os praticantes de delitos considerados menores, perto do que ocorreu na segunda-feira, como furtos e roubos. Isso, com total sensação de impunidade.

Festejam as autoridades de segurança quando as estatísticas mensais do governo estadual apontam queda nos índices de criminalidade — na região de Araçatuba, por exemplo, os roubos caíram pela metade no primeiro bimestre. Esquecem-se, por outro lado, que o maior desafio, atualmente, está no combate ao crime organizado que, lamentavelmente, institucionalizou-se, contando com dinheiro, armamento pesado e influência dentro das unidades prisionais.

Apesar do choque que o episódio causou à população, nos últimos anos não têm sido poucas as ações que caracterizam o poderio de facções criminosas em cidades do interior onde, por muito tempo, viver foi sinônimo de paz. Basta considerar as próprias condenações e prisões conseguidas pelo Gaeco (Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado). Muitas delas, aliás, envolvem bandidos ligados ao PCC (Primeiro Comando da Capital), última palavra quando o assunto é crime organizado no território paulista.

Em agosto, durante visita a Araçatuba, quando disse que a estrutura de segurança está falida, o presidente da Associação dos Investigadores de Polícia do Estado, Vanderlei Balloni, disse que seria necessária a contratação de mais 25 mil policiais em todo o Estado. Mais dados preocupantes: dos 645 municípios paulistas, 256 (40%) não têm delegados titulares. Esse cenário mostra o quanto o Estado ainda precisa avançar na segurança, principalmente nas cidades do interior, cada vez mais “desbravadas” pelos criminosos. Os avanços passam não só pelo aparelhamento e fortalecimento de serviços de inteligência, como também na valorização dos profissionais e no aumento do número de policiais. 

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