A boa escolha do Enem

Tema suscita discussão acerca do respeito às diferenças

Alvo de polêmicas nos últimos anos, especialmente em relação à sua redação, a organização do Enem (Exame Nacional do Ensino Médio) foi feliz, em 2017, na escolha do tema para verificar a capacidade de produção textual dos milhares de candidatos a vagas nas universidades.

Enquanto na véspera do exame havia grande expectativa por temas que têm gerado forte discussão nas redes sociais ultimamente, como a situação político-econômica do País e a homofobia, a prova saiu com assunto sobre a educação de surdos no Brasil. 

A escolha da banca examinadora pegou tanta gente de surpresa, inclusive professores, que, logo, ficou ofuscado o intenso debate criado nos dias anteriores à prova: no caso, a possibilidade de se aplicar zero ao candidato que atentasse contra os direitos humanos e a sustentabilidade.

Para uma boa reflexão sobre a inclusão de surdos no ensino, não é preciso o autor de um texto ser profissional da educação. Trata-se do tipo de questão que suscita uma discussão sobre o princípio constitucional segundo o qual educação é um direito de todos. Sob o ponto de vista moral, produz a conscientização acerca do respeito às diferenças.

Essa é uma realidade que não está distante de Araçatuba, onde, somente, na rede municipal de ensino, há aproximadamente 400 crianças portadoras de necessidades especiais, uma parte delas com deficiência auditiva. Trabalho voltado à inclusão desses alunos já ocorre, conforme mostrou reportagem publicada por esta Folha, em outubro, no caderno especial sobre educação.

Apesar de iniciativas como estas, o desafio é grande. Não é à toa que uma lei de 2002 determinou que a Libras (Língua Brasileira de Sinais) se torne a segunda língua oficial do Brasil. O problema é tão grave que, não raramente, surgem relatos de escolas que negam matrícula a alunos surdos por não haver profissional capacitado para lidar com eles. Quando não, há instituições privadas de ensino que cobram a mais das famílias dessas crianças a fim de custear a despesas com professor bilíngue ou intérprete.

Seguramente, o estudante que refletiu com a sensibilidade que o tema merece ser tratado terá resultado satisfatório. O trato com coerência mostrará ainda aquele futuro universitário preparado para enfrentar desafios, buscando soluções, esta uma premissa do exame nacional desde a sua criação.

Muito provavelmente, essa é a visão que a redação do Enem esperava, um trato mais humano, que difere, e muito, de qualquer forma de especificidade, como apregoaram os críticos da escolha do assunto.

LINK CURTO: http://folha.fr/1.372212