População aguarda corte da fita para estrear asfalto no entorno da praça Rui Barbosa, em 1939; no destaque, Furquim

30 anos sem o prefeito da ‘Cidade do asfalto’

Araçatuba foi primeiro município do Interior a receber pavimentação

Quem vê atualmente as maltratadas ruas de Araçatuba, pode não acreditar que o asfalto foi um dos maiores orgulhos do município no passado. Araçatuba foi a primeira cidade do interior de São Paulo a ter vias asfaltadas, ficando conhecida como a “Cidade do asfalto”, graças ao empenho e espírito visionário do ex-prefeito Aureliano Valadão Furquim, cuja morte completa 30 anos em 2017. 

Valadão governou Araçatuba em dois mandatos: o primeiro entre 1938 e 1941, por meio de intervenção do então presidente Getúlio Vargas. Já o segundo, entre 1952 e 1955, ocorreu após Valadão ser eleito pelo voto popular. Neto do ex-prefeito, o juiz da 27ª Vara Criminal do Fórum Central da Capital, Antônio Angrisani Filho, considera o asfaltamento das ruas da cidade um dos grandes feitos de seu avô. 

Segundo o historiador Euclides Garcia Paes de Almeida, autor da biografia de Valadão “De minha janela”, o ex-prefeito ficou sabendo da novidade após um vendedor francês lhe oferecer asfalto. Ele contou que, em São Paulo, a avenida Brigadeiro Luís Antônio estava sendo asfaltada. “Ele foi até lá, conversou com engenheiros e entendeu que seria um bom negócio para Araçatuba, pois era fácil conseguir pedras, por causa da pedreira do Baguaçu, e o piche era mais barato do que os paralelepípedos”, explicou Angrisani Filho.

CONTRÁRIOS
Porém, alguns vereadores foram contrários à vinda do asfalto para o município, algo que também pode parecer inacreditável atualmente. Naquela ocasião, os parlamentares achavam que os paralelepípedos seriam a melhor opção para o calçamento das ruas da cidade. Mesmo em meio a polêmica, Valadão conseguiu trazer o asfalto para Araçatuba. 

O entorno da praça Rui Barbosa e a rua Carlos Gomes foram as primeiras vias do município a serem asfaltadas, em 1939. “Mas, inicialmente, como acontece com toda experiência, houve muitas críticas. O calor de Araçatuba fez o asfalto derreter”, contou Angrisani Filho. Porém, alguns ajustes foram feitos na produção do asfalto e o empreendimento, finalmente, acabou dando certo. 

Mas esse foi apenas uma de várias realizações que Valadão fez para a cidade. De acordo com Angrisani Filho, o ex-prefeito também foi responsável por impulsionar o crescimento mais ordenado do município. Ele foi responsável por abrir a rua Cussy de Almeida e uma estrada que ligou Araçatuba a Pereira Barreto, numa época em que as ferrovias eram dominantes. Essa estrada serviu para o escoamento da produção agrícola e de gado. 

Outra polêmica em que Valadão acabou entrando foi a instalação da Faculdade de Odontologia em Araçatuba. Conforme Angrisani Filho, seu avô conseguiu a vinda da faculdade para o município, porém, com a condição de que encontrasse um prédio para abrigá-la. “Ele tinha acabado de construir a Casa da Criança e decidiu levar a faculdade para lá, onde está até hoje. Depois, ele arranjou outro edifício para a Casa da Criança”, relatou o neto de Valadão. 

LEGADO
Não é fácil enumerar as obras e realizações de Valadão. Ele foi responsável pelas construções da primeira biblioteca municipal; do Tiro de Guerra; do estádio Adhemar de Barros; da Escola Estadual Manoel Bento da Cruz, o IE; da Escola Industrial, de boa parte das praças; pela criação da Guarda Municipal, entre outros feitos. 

De acordo com Almeida, o ex-prefeito Sylvio Venturolli, que não era de falar sobre os outros, disse, em certa ocasião, que mais de 50% do que havia de permanente no município era obra de Valadão. Outro apelido de Araçatuba também vem de sua administração. O termo “Cidade do boi gordo” surgiu após o ex-prefeito transformar a “Feira do Boi Gordo” em um grande evento do município.


Político, flautista, advogado, soldado
constitucionalista e articulista de jornal

O juiz Antônio Angrisani Filho tem boas lembranças das férias que passava na casa de seu avô Antônio Valadão Furquim. Ele se recorda que todos os anos, na época do Natal, a família se reunia na grande residência do ex-prefeito. O magistrado é filho da segunda filha de Valadão. Ao todo, o ex-chefe do Executivo araçatubense teve seis filhos. 

“Ele era uma pessoa bastante comunicativa, gostava de contar histórias e de festas”, recorda-se Angrisani Filho. Nascido em 1901, Valadão veio para Araçatuba em 1926, após se formar em direito em São Paulo e abandonar o sonho de ser flautista e ator de teatro. Seu pai lhe deu um cartório - o primeiro do município - de onde conseguiu seu sustento. “Com a política, ele não ganhou nada, só perdeu”, afirmou Angrisani Filho. 

Quando já era pai de dois filhos, Valadão combateu na chamada Revolução Constitucionalista de 1932, quando paulistas pegaram em armas para enfrentar a ditadura de Getúlio Vargas. Segundo Angrisani Filho, seu avô costumava comentar que essa foi uma das “maiores besteiras” que tinha feito na vida. “Eu poderia ter morrido”, dizia ele, de acordo com Angrisani Filho.

Valadão contava que as tropas de São Paulo eram compostas por civis que não tinham treinamento militar. Suas armas e munições eram precárias para enfrentar o Exército de Vargas. Uma das histórias que o ex-prefeito contava dava detalhes de como era a realidade dos revolucionários. 

Na linha de frente, ele foi nomeado tenente e, certa vez, mandou um soldado buscar munições. Como ele demorava para voltar, Valadão foi até a base para ver o que estava acontecendo. “O tal soldado veio caminhando ao encontro dele, ao lado de outros dois homens. Eles perguntaram de qual lado estava. E ele respondeu que lutava por São Paulo. Pois nós somos contra e o senhor está preso, disse um deles”, relatou Angrisani Filho. Valadão permaneceu preso até o fim do conflito. 

Valadão ainda foi vereador, candidato a deputado estadual e escreveu artigos para o jornal “A Comarca” até o fim de sua vida, em 1987. Para Angrisani Filho, mesmo após a publicação de biografia e de uma exposição sobre a vida do ex-prefeito na Câmara, Valadão ainda não foi homenageado à altura do trabalho realizado por ele. “Era uma pessoa apaixonada por Araçatuba. Nunca parou”, afirmou o juiz. 

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