Folha da Região - Karvadi, pai da linhagem nelore no País

Karvadi, pai da linhagem nelore no País

Aline Galcino +++ --- Encaminhar Erro Imprimir


Domingo - 13/07/2008 - 03h01



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Fotos: Reprodução Valdivo Pereira - 11/7/2008
               
Imagem do touro Karvadi, adquirido por Torres Homem, cuja ampola de sêmen está cotada hoje, 36 anos após sua morte, em R$ 30 mil


Mesmo 36 anos após sua morte, o touro nelore Karvadi ainda está presente em pelo menos 80% do rebanho nacional da raça. Prova disso são as características raciais dos animais participantes da Expoinel Paulista, que neste ano acontece durante a 49ª Exposição Agropecuária de Araçatuba, que não negam a ascendência. A exposição é considerada a mais importante do gado nelore do Estado. O touro continua em evidência por meio de seus descendentes.

Karvadi, considerado o mais perfeito nelore do mundo, foi importado da Índia, com outros animais, para promover o melhoramento genético da raça, que no início era feito por cruzamentos e não por inseminação artificial.

O touro consagrou a marca VR, que já se destacava como precursora na criação de nelore no Brasil, numa época em que um animal nelore tinha apenas a metade do valor de um gir P.O. (Puro de Origem). A importação foi feita pelo pecuarista Torres Homem Rodrigues da Cunha, que escolheu Araçatuba para implantar o laboratório de inseminação e coleta de sêmen do touro. O feito tornou o município conhecido nacionalmente e revolucionou o rebanho nelore no Brasil.

Após quatro anos no País, com 15 anos de idade, começaram as coletas de sêmen do animal considerado o pai da linhagem da raça no Brasil. O produto é tão valioso que quebra o recorde em valores a cada leilão em que é colocado à venda.

Segundo a publicitária Fernanda Prata Cunha, neta de Torres Homem, o último leilão com a oferta de apenas uma ampola do sêmen de Karvadi foi realizado no ano passado, no Mariá Plaza Hotel. O remate foi de aproximadamente R$ 30 mil. "Um animal top tem seu sêmen leiloado em média por R$ 10 mil", compara. Atualmente, há apenas 50 ampolas de sêmen do animal na Central VR, por isso não há previsão de novos leilões. "O que ainda resta utilizamos para consumo próprio", afirma Fernanda. O touro morreu em 1972. Torres Homem mandou embalsamar o animal, que permanece na sala de troféus, na chácara Zebulândia, da Central VR, em Araçatuba. Fundada em 1968, a Central VR é referência no uso da genética para o melhoramento dos rebanhos, com coleta, industrialização e comercialização de sêmen bovino. Atualmente, cerca de 60 touros de várias raças estão em coleta na Central. São reprodutores de plantéis do País premiados em pistas de julgamento e provas.

São dois os tipos de produtos para o mercado. A linha elite, cujo sêmen é utilizado na formação de reprodutores, matrizes e plantel, e a linha comercial, voltada para o abate das gerações futuras e comercialização da carne. A Central VR também atua em países vizinhos, como Bolívia, Paraguai e Uruguai.

PRECURSOR - Torres Homem está atualmente com 93 anos, lúcido, apenas com a locomoção e a visão um pouco precárias, segundo a neta. "No entanto, ele visita a chácara todos os dias logo pela manhã para acompanhar o trabalho", conta Fernanda.

José Carlos Prata Cunha, pai de Fernanda, é o responsável pela Central, que está em busca de novos "Karvadis", na Índia. "Estamos vivendo novamente problema de consangüinidade, por isso meu pai enviou um grupo à Índia para trazer bons animais para ajudar no melhoramento genético do rebanho", revela. A tentativa de uma segunda importante importação de animais está em curso há dois anos, no entanto, há entraves no processo, impostos principalmente pelos governos brasileiro e indiano.

Família acreditou, investiu e desenvolveu a raça zebuína

Uma das figuras mais importantes da pecuária nacional foi homenageada na semana passada pelo Siran (Sindicato Rural da Alta Noroeste). José da Silva (Dico) agora é o nome de uma das ruas do recinto de exposições Clibas de Almeida Prado, em Araçatuba. A homenagem resgata a história do nelore no Brasil e no município.

Dico, que teve sua história eternizada por Gitânio Fortes no livro "O Dono do Olho - A História de José da Silva, o Dico", da Publique Comunicação Total em Agronegócios, foi um dos responsáveis pela importação de gado zebu, que mudou a pecuária do Brasil.

Descoberto na década de 30 por Vicente Rodrigues da Cunha, pai de Torres Homem, aos 11 anos de idade foi contratado com gerente da fazenda da família após provar ser capaz de separar, sem erro, três lotes de animais que foram misturados. Sua acuidade visual, ou o "dom para ver", impressionava.

A seleção nelore de Vicente avançava num tempo em que ninguém - considerando os pecuaristas mais proeminentes - se importava com a raça. Nos eventos pecuários e exposições, as atenções eram para o gir - zebu também proveniente da Índia - e o indubrasil - zebuíno fixado a partir de cruzamentos. O nelore, animal de "orelhinha", era considerado apenas gado de corte, no sentido de que não havia dedicação para seleção nem era de elite. Pelo preço de um gir P.O. se compravam duas cabeças de nelore.

A marca VR também se destacava com gir e indubrasil, no entanto, Vicente, considerado um visionário, acreditava no nelore. "Observava a rusticidade e a precocidade (do nelore). Ia para o abate mais cedo, em dois ou três anos, mesmo em condição mais adversa de criação", escreveu Fortes. A nata de sua seleção nelore foi concentrada em 1941 na fazenda da Ilha, em Minas Gerais. Na época, a marca VR contava com 800 fêmeas nelore. Vicente morreu em 1942 e então os filhos assumiram seus negócios.

VIAGEM - A preferência pelo nelore entre as raças zebuínas só se firmou quando o preço da carne subiu, nos anos 50. Os pecuaristas se conscientizaram da necessidade de outro tipo de animal para produzir mais e aproveitar esse momento do mercado. E o nelore era esse gado.

Porém, após duas décadas e meia, as linhagens de nelore selecionadas no Brasil começavam a ser assombradas pelo fantasma da consangüinidade. Foi quando Torres Homem, não podendo sair do país e deixar os negócios, delegou a Dico a missão de retornar à Índia para trazer animais capazes de refrescar o sangue do rebanho nacional.

O propósito da viagem era adquirir animais que seriam reprodutores no Brasil. Animal sagrado na Índia, o boi teria de ser bem tratado no seu destino para que se autorizasse sua saída do país. Na segunda semana de missão naquele país, Dico avistou por retrato, o nelore que idealizava quando fazia seus planos para a viagem. Era o Karvadi, touro tetracampeão nacional e campeão asiático, um ídolo no país.

O encontro de Dico com Karvadi foi em 25 de outubro de 1961, quando o animal tinha 11 anos. A compra foi fácil, mas a burocracia indiana não. Demorou um ano para a liberação dos documentos da aquisição do animal pelo governo indiano. A autorização de importação pelo governo brasileiro também foi morosa.

A missão durou um ano e nove meses. Torres gastou uma fortuna, tendo que vender um prédio de 12 andares no centro de Belo Horizonte (MG) para pagar a empreitada. Dico trouxe para o Brasil 12 touros e 25 vacas da raça nelore, além da gir, búfalos, caprinos e galos, um total de 181 animais, fora os nascimentos em solo indiano, embarcados num navio de três andares.

A princípio, os animais foram levados para a fazenda da Ilha, em Minas. Como a região ia ser inundada, o núcleo de seleção da marca VR migrou para Araçatuba, em 1964. Quatro anos depois, notando a produção e o tesouro genético de Karvadi, começou a coleta de sêmen do reprodutor. Era o início do que hoje é a Central VR.

Depois de servir por dez anos o rebanho VR, Karvadi morreu em 1972. O touro foi embalsamado e tem seu corpo protegido por uma redoma no salão de troféus e medalhas da chácara Zebulândia em Araçatuba. Dico voltou outras vezes à Índia e, em uma delas, no final dos anos 70, mesmo sem autorização, conseguiu, por meio de amizades no governo, trazer sêmen de outros reprodutores para o Brasil. Ele morreu em março de 2003, aos 80 anos, dedicando-se à família VR.


Divulgação
               
Torres investiu na genética
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