Folha da Região - A hora de desacelerar

A hora de desacelerar

Fernanda Mariano +++ --- Encaminhar Erro Imprimir


Domingo - 02/09/2007 - 03h01



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Andr Luiz Moterani, de Birigi, decidiu sair do ramo do entretenimento (junto com o irmo, comandava trs boates), para curtir a natureza e o fim de semana


No faa de sua vida um rascunho. Voc talvez no tenha tempo de pass-la a limpo". O conselho de Mrio Quintana nunca foi to atual. Numa poca em que as possibilidades e informaes so oferecidas e consumidas de forma frentica, quando fast food a maneira encontrada para se alimentar, e o tempo o inimigo da agenda, algumas pessoas resolvem seguir na contramo do mundo moderno, globalizado, e optam por desacelerar.

Seja mudando de emprego, rotina ou conduta, ou diminuindo o ritmo de trabalho, esses "corajosos" chegam a deixar o trabalho, em detrimento da sua renda, por uma melhor qualidade de vida.

"Corajosos" porque esto seguindo no caminho contrrio do que orienta o conceito atual, mundial, de que "quem fica parado pode ser engolido; fica para trs".

No livro "Perca tempo - no lento que a vida acontece", o jornalista, socilogo e professor Ciro Marcondes Filho mostra alguns aspectos da desacelerao na produo e aproveitamento da rotina - aponta, inclusive, quanto isso benfico.

Contudo, a opo por mudar de vida - ou melhor, de rever os hbitos que no consideram os limites, que desgastam e consomem - no fcil. " preciso ser corajoso", diz a psicloga Marilanda Stamponi Zapparoli, de Araatuba. "Primeiro, preciso entender porque a pessoa est acelerada; descobrir o que a faz acelerar a vida", comenta.

De acordo com a profissional, a maioria das pessoas s "enxerga" o quo "atropelada" anda a vida quando ultrapassam os limites - do corpo e da mente. Comumente, possvel o desenvolvimento de doenas e acidentes. Muitas vezes, esses fatos ocorrem em virtude da pressa, que leva falta de cuidados e ateno para consigo mesmo. " preciso perceber e respeitar os limites, com essa conscincia possvel mobilizar e mudar".

Marilanda lembra que a acelerao no est ligada ao acmulo de trabalho, de tarefas, mas nos excessos. Mesmo que a pessoa trabalhe apenas com servio voluntrio, ela pode se conduzir ao esgotamento. "Tudo o que tem excesso est em desequilbrio", ressalta.

Assim, uma pessoa pode estar consumindo muita energia, tempo e disposio, em determinada rea da vida, e esquecendo-se de cultivar outras. Atualmente, leva-se muito em considerao o status e a carreira profissional, e a vida pessoal, o lazer, fica em um segundo plano.

Para a psicloga, a sociedade atual alimenta um processo de busca pelo ter, que muitas vezes empregado para suprir um vazio, uma ansiedade. "A pessoa tem medo da solido, fantasia a solido, e se pega em alguma atividade".

Cansao, insatisfao sem motivo, irritao, raiva e intolerncia so sintomas encontrados nas pessoas que extrapolaram os seus limites e se encontram em uma situao de crise. "As pessoas precisam entender, no entanto, que os momentos de crise no so indicados para decises, como deixar o emprego, por exemplo; eles servem para a conscientizao, e busca de mudanas".

ATENDENDO AO CHAMADO - Num de seus versos, o poeta espanhol Antonio Machado escreveu: "O vento, num dia radioso, certa vez chamou". Foi para voltar a viver em ritmo de poesia, e no como no mercado da bolsa de valores, que a empresria Cludia Jaqueline Guidini Ingrati, de Araatuba, resolveu desacelerar. Com tempo para o filho, famlia e amigos, ela lembra que chegou ao ponto de "enlouquecer" com as responsabilidades que foi adquirindo no trabalho. Agora, percebe que fez a escolha certa, mesmo reconhecendo que a sua situao financeira no a mesma.

"Em alguns dias, saa de casa s 6h e s retornava meia-noite, quando no mais tarde", conta. Cludia Jaquelina proprietria de uma distribuidora de cosmticos em Araatuba, e teve dias de estremo estresse e correria quando tambm passou a coordenar a rede de distribuio na cidade de Birigi.

"Em poucos meses andei 42 mil quilmetros pelas cidades da regio, s vezes no voltava para casa", lembra. "Quando me perguntavam onde eu morava, costuma dizer que vivia na rua e que, s vezes, eu dormia em Araatuba", conta. "Achei que daria conta das duas empresas, mas aquela vida estava me deixando cada vez mais cansada, sem tempo para o meu filho".

A empresria conta que o momento de transio foi difcil. "Eu sabia que iria sofrer para me readaptar, inclusive financeiramente, mas que iria passar", comenta. "Hoje, sinto que fiz o melhor; consigo almoar com meu filho, coisa que no fazia; eu o levo aula e fazemos tarefa juntos", diz. "No final de semana, timo se deixar abraar pelo sof", brinca Cludia, que at mesmo nos fins de semana promovia reunies e dedicava-se ao trabalho.

Tambm foi para melhorar a qualidade de vida que os irmos Werikson Carlos e Andr Luiz Moterani, de Birigi, deixaram o ramo do entretenimento para voltar ao da construo. Juntos, eles administravam trs casas noturnas, ocupao que durou 10 anos.

"Tem gente que acha que dono de boate no faz nada durante a semana, mas no assim", conta Werikson Carlos. "Trabalhvamos durante toda a semana para programar o evento do fim de semana, e ainda precisvamos acompanhar o movimento todas as noites", lembra.

Hoje, os irmo dizem que continuam com grande volume de trabalho - depois de decidirem por fechar os empreendimentos de balada, voltaram aos materiais de construo. "O que mudou foi a disponibilidade dos fins de semana, de ter tempo de ir para o rancho, ficar com amigos, pescar", comenta Andr.

"A nica coisa que lembra a vida que tnhamos a msica", brinca Andr. "Que nem ouvimos muito, nos momentos de relax toca mais sertanejo, ou um som clssico", complementa Werikson.

Tendncia do 'devagar e sempre'

Desde 1989, os italianos decidiram que preservariam as suas tradies culinrias e valorizariam o direito a deliciar calmamente as refeies. O movimento "slow food" se espalhou por vrios pases. Agora, outra influncia italiana que est ganhando o mundo o conceito "Cittaslow", uma idia que busca defender a cultura do viver bem.

No caso do "slow food", a instalao de uma loja de fast food na Piazza di Spagna, em pleno centro de Roma, foi a gota d'gua para o incio de uma campanha que prega o preparo caprichado dos pratos, o cuidado com as tradies regionais e o benefcio de se apreciar o alimento.

Nas cidades que adotaram o Cittslow, a principal meta da prefeitura local garantir qualidade de vida aos cidados. O movimento busca desenvolver servios e solues que permitam aos moradores usufruir de modo fcil, simples e prazerosa a prpria cidade.

A pequena San Daniele del Friuli uma das 55 cidadezinhas da Itlia que fazem parte do movimento - que j reproduzido em pases como Alemanha, Espanha, Portugal, Inglaterra e Austrlia, entre outros.

Para ganhar o ttulo de slow a cidade no pode ter mais de 50 mil habitantes e deve cumprir vrios requisitos - que vo da poltica energtica ao transporte alternativo, da reciclagem do lixo educao do paladar nas escolas, onde as crianas descobrem os sabores do territrio. A cidade tambm precisa manter viva a sua identidade: conservando praas, teatros, restaurantes e comrcio de rua.

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