Folha da Região - Invento permite perfurar poço sozinho

Invento permite perfurar poço sozinho

Fernanda Mariano +++ --- Encaminhar Erro Imprimir


Domingo - 08/01/2006 - 10h44



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Yago Monteiro
               
Ezébio de Carvalho, o Carrapicho, que perfura poços artesianos há 25 anos, inventou sistema que permite trabalhar sozinho em lote no assentamento


"Gênio é 1% inspiração e 99% transpiração", já dizia o inventor americano Thomas Edison, que patenteou mais de mil invenções e é criador de lâmpada elétrica, telefone, entre outros. Engenhosidade e criatividade, força de vontade e trabalho, são características de um morador do assentamento Dandara, em Promissão, a cerca de 75 quilômetros de Araçatuba. Com meia dúzia de tábuas e alguns metros de corda, o homem bolou uma engenhoca que o ajuda a escavar sozinho um poço de água no terreno que lhe foi doado.

Fazendo o trabalho de cinco, quantidade de pessoas que normalmente se unem para a escavação de um poço, Ezébio Francisco de Carvalho, 48 anos, que é mais conhecido como Carrapicho, está chamando a atenção dos outros assentados e moradores da cidade.

Uns não acreditam nos comentários, que correm por outros assentamentos. Outros o consideram uma espécie de Professor Pardal, cientista e inventor, personagem das histórias em quadrinhos da década de 1950, criado por Carl Barks para os estúdios Disney.

Entre todos os comentários, Carvalho segue firme o objetivo que deve concluir até o fim do mês. O poço já tem mais de 11 metros e meio de profundidade, com dois metros e 10 centímetros de diâmetro. E a terra no fundo já está minando, sinal de que o trabalho está chegando ao fim. Tudo em cerca de 13 dias de trabalho.

Ao encontrar a água e cavar por mais um metro e meio, Carvalho vai instalar uma bomba para puxar a água para cima e pronto. Está pronto o propósito de uma vida.

Propósito sim, porque a criação da engenhoca e a promessa de construir o sistema para escavação de um poço com as "próprias mãos" surgiram com um desafio, que o homem acredita ter superado por conta da sua fé e vontade de vencer.

A história tem 25 anos. Carvalho escavava poços artesianos, mas sempre acompanhado por auxiliares. Quando estava trabalhando em uma dessas escavações, em Clementina, o seu ajudante teve um problema de saúde. Ele tinha que terminar o trabalho sozinho, e rápido, porque estava com o programa da obra atrasado.

Carvalho conta que entrou dentro do poço, ainda raso, que havia começado com o ajudante. Ficou lá dentro 15 minutos e saiu com uma solução. "Fiquei pensando em uma forma de fazer tudo sozinho". E conseguiu. Depois disso prometeu que quando tivesse "sua terra" escavaria o poço sozinho.

A estrutura que esta chamando a atenção funciona como um braço mecânico. Uma lata, dessas de 20 litros de tinta, é presa em uma das cordas que passa pelo braço de madeira e devolvida para dentro do poço. Ela é responsável por despejar a terra que é retirada de dentro do buraco de terra.

A outra corda fortifica a estrutura, facilitando que a lata seja erguida das profundezas do poço até a superfície. O braço ainda se movimenta lateralmente para que a terra da lata seja despejada aos montes ao redor do buraco.

De lata em lata, Carvalho está alcançando o objetivo. E mesmo com a escuridão da profundidade, o homem não desanima nem teme qualquer tipo de perigo. "Eu sei fazer. É bem seguro", afirma. Só para garantir que tudo corra tranqüilamente na superfície, Carrapicho leva o cachorro da família, que ronda o local e late assim que avista alguém.

O homem diz que até ensina a técnica que desenvolveu, e afirma não ter copiado nem visto em qualquer outro lugar o sistema.

ASSENTAMENTO - Carrapicho trabalha no lote que ganhou com a criação do assentamento após a desapropriação da fazenda Reunidas, em novembro de 2004. O homem foi encaminhado com a família ao lugar em fevereiro do ano passado, construiu uma moradia provisória e vem mexendo na terra, produzindo mudas e se dedicando ao poço.

De onde construiu temporariamente, no terreno de conhecidos, até o seu lote, são três quilômetros, trecho que percorre diariamente. No caminho ele acompanha o desenvolvimento dos outros moradores do lugar. O Dandara abriga hoje 203 famílias.

Os assentados receberam no mês passado o primeiro crédito, chamado de fomento, no valor de R$ 2,4 mil, repassado pelo Incra (Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária). Ele serve para a compra de até R$ 900,00 em alimentos. O restante pode ser usado para a compra de materiais como ferramentas para o campo e outros utensílios.

Em fevereiro, eles devem receber o crédito para a construção das casas. A verba para a compra do material de construção foi liberada em agosto, no total de R$ 5 mil.

Com o recurso, Carrapicho e os vizinhos, deixam as instalações provisórias e começam uma nova vida: a de produtores rurais e não mais sem-terra, como por muito tempo foram chamados.

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