Folha da Região - Espetculo mostra a realidade da escravido

Espetculo mostra a realidade da escravido

Ana Cristina Senche +++ --- Encaminhar Erro Imprimir


Quarta-Feira - 26/03/2003 - 10h33



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Aps 20 anos, Benedito Irivaldo Souza, mais conhecido como Vado, volta a Araatuba para divulgar a cultura negra. Foi com esse propsito que fez a adaptao de "O Navio Negreiro", do famoso escritor brasileiro Castro Alves, que lutava por causas sublimes, como a abolio da escravido.

Nessa nova etapa, a pea j passou por Pereira Barreto, Andradina e Guararapes, chegando agora na cidade. O espetculo poder ser conferido hoje (26) e amanh (27), s 20h, no teatro Floriano Camargo Arruda Brasil, o So Joo.

Retratando o cotidiano vivenciado pelos negros, que vinham amontoados em navios negreiros para servirem como escravos no Brasil, Vado representa 16 personagens em um espetculo que tem cerca de 1h40 de durao. No palco, um nico ator amparado por um pano de fundo, jogos de luzes, figurino e trilha sonora. Entra em cena toda a experincia adquirida nos 32 anos de teatro, j que Vado est h mais de trs dcadas em cartaz, pelo Brasil e pelo mundo, com a mesma pea que sofre adaptaes de acordo com o local e pblico que prestigia o espetculo.

A obra do poeta Castro Alves foi adaptada pelo ator, autor e escritor para se encaixar de maneira mais atual nos anseios da sociedade. Assim, uma pitada da vida de Martin Luther King Jr. (reverendo negro norte-americano, que foi assassinado em decorrncia de sua luta por direitos iguais para negros e brancos), Pel e Cassius Marcellus Clay (mais conhecido por Mohamed Ali, boxeador norte-americano que foi exemplo para muitos jovens negros em sua poca), dentre outros, vem para deixar a pea ainda mais atualizada.

Para Vado, Castro Alves foi uma fonte de amor inesgotvel para com os negros. "Essa a histria do meu povo, com muito amor e exemplos", explica o ator, "a sociedade nunca precisou tanto assim de textos como este. Hollywood banalizou a arte com seus filmes". Ainda para o ator, a pea funciona como um meio de facilitar o aprendizado escolar e tambm para resgatar a memria e mostrar um pouco da cultura negra, que embora exista no Brasil inteiro, no muito difundida.

"'O Navio Negreiro' torna-se atual por trazer uma histria de amor entre os povos. No importando a raa, j que ningum escolhe a cor da pele ou o tipo de cabelo com que vai nascer", ressalta o ator. Para Vado, hoje a integrao social muito mais ampla, pois a convivncia melhor e alguns avanos como direito iguais e casamento entre raas foram conquistados ao longo das lutas e revolues.

REQUISITADA - A pea sempre muito requisitada e d ao ator a possibilidade de viver 16 personagens, que so reformulados a cada readaptao o que acontece a cada ano. O esforo no palco visvel na balana: Vado chega a perder entre 1 e 1,5 quilo a cada apresentao. "O que sempre me ajudou foi o preparo fsico que adquiri quando jogava futebol no Guarani, em Campinas", cidade que est prestes a homenage-lo com o Ttulo de Cidado Campineiro. Ele tambm foi agraciado com um "Voto de Louvor", proposto pela Cmara Municipal de Araatuba, em 1983.

Como o Brasil muito grande, o espetculo j rodou o pas pelo menos quatro vezes. J esteve em pases da Amrica do Norte e Central e na Europa, onde foi recebido com muitos elogios pelos crticos.

O mecnico que virou ator - De origem humilde, nascido em Mogi-Guau, na regio de Campinas, em 15 de janeiro de 1948, na juventude, Vado fez cursos no Senai para tornar-se mecnico industrial. Jogou bola pelo Guarani Futebol Clube de Campinas o que lhe deu flego para encarar as maratonas de aulas de interpretao e dana a que iria submeter-se para alcanar seu sonho.

Muito tmido, tralhava em uma multinacional alem. Foi da que vieram os primeiros estmulos para que realizasse cursos de teatro amador e dramatizao. Em 1969 subiu no palco pela primeira vez. Nesse mesmo ano, foi convidado pela Rede Record para fazer parte de seu casting de atores. J apaixonado pelo teatro, abandonou a faculdade de engenharia mecnica, com o apoio da empresa na qual fora um dos primeiros negros que l trabalharam.

Entre 1971 e 1972, trabalhou em "Hair", um dos mais famosos musicais da Broadway, em Nova York e que, na poca, foi encenado no Brasil, com montagem de Altair Lima. Com o papel, tornou-se destaque para a crtica e foi convidado para fazer curso na Broadway, com a coregrafa Julie Arsenal.

Em poca de regime militar, demorou muito tempo para concluir o curso, devido as dificuldades para conseguir visto. Foi nessa poca que surgiu a idia de adaptar "O Navio Negreiro" para o teatro. "Os atores negros no eram valorizados. Foi por sugesto de um amigo que me envolvi em uma pea que tem como centro das atenes um negro, escravo e a cultura dos afro-descendentes", revela.

Sempre envolvido com as causas dos negros, Vado faz palestras em faculdades e escolas e tambm encena a pea "Razes Sociais", que retrata a vida de uma famlia de afro-descendentes no ntimo de seu lar. Esta inclui manifestaes interiores e mostra o que pensa o negro sobre a favela, o desemprego, o alcoolismo e outros problemas sociais.

SERVIO
A pea "O Navio Negreiro" poder ser conferida hoje (26) e amanh (27), s 20h, no teatro So Joo. Os ingressos antecipados e para estudantes custam R$ 5. Na hora do espetculo os convites sero vendidos a R$ 10.

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