Folha da Região - Erika Tamura: A distncia entre Brasil e Japo

Erika Tamura: A distncia entre Brasil e Japo

Erika Tamura +++ --- Encaminhar Erro Imprimir


Quinta-Feira - 18/10/2012 - 16h32



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Atualização: 16h40 de 18/10/2012


               
*Erika Tamura, comerciria em Joso, no Japo, escreve quinzenalmente como colaboradora da Folha


Uma vez, algum me perguntou qual a distncia entre Brasil e Japo. Na hora, no respondi, mas essa pergunta ficou na minha cabea. Agora, eu tenho a resposta: a distncia depende do ponto de vista de cada um!

Porque hoje muito mais fcil. A tecnologia encurtou as distncias; parece que o Brasil aqui do lado. Tenho notcias em momentos reais, converso com meus pais e amigos como se eles fizessem parte da minha convivncia e, de certa maneira, fazem mesmo, s que virtualmente. Mas olhando com um pouco de nostalgia, h 14 anos, quando cheguei aqui, a distncia entre Brasil e Japo era enorme, imensa, praticamente intransponvel. Lembro-me de que chorei durante trs meses, com vontade de ir embora do Japo. Sem a internet, o nico recurso que tinha em mos e de retorno rpido era o telefone, com ligaes carssimas; impossvel imaginar, naquela poca, que hoje falaramos com o mundo todo praticamente de graa.

Com as facilidades dirias, a ideia que se tem que aqui um pedao do Brasil, pois, na janta, temos arroz e feijo todos os dias, como no Brasil. A televiso brasileira; noticirios em portugus so timos! A Prefeitura no um bicho de sete cabeas, pois o atendimento em portugus. Tudo isso tem tornado a vida dos brasileiros no Japo muito confortvel, muito cmoda e fcil demais.

Agora, o nico momento em que realmente pensei "nossa, como o Brasil longe daqui!!", foi quando a minha av faleceu, e eu no estava l. Isso foi h sete anos, e at hoje no consegui superar essa dor.

Nesses sete anos que se passaram, eu nunca mais retornei ao Brasil, no porque no quis, mas porque no consegui. No conseguia me imaginar pisando em terras brasileiras sem a minha av ali, me esperando. Esse foi um dos piores momentos em que a distncia de um oceano me pareceu infinita.

Os japoneses me perguntam qual o tempo de voo entre Japo e Brasil, eu respondo que, atualmente, mais ou menos em torno de 30 horas, e eles se espantam! Trinta horas? muito tempo, capaz de morrer no caminho! Essa a resposta da maioria. E eles me perguntam como consegui vir. Eu respondo assim: "Meus avs viajaram trs meses de navio e chegaram bem, por que eu no aguentaria 30 horas?". Silncio geral...

E ento, como se mede essa distncia que separa esses dois pases? Ser mesmo que em quilometragem? Em tempo? Em sentimentos? Em saudades? Em lembranas?

Como falei, tudo uma questo do ponto de vista. Culturalmente, so pases bem distantes mesmo, mas completamente concebvel a ideia de que h maneiras de conviver com as duas culturas.

Saudades do Brasil? Tenho muitas, sinto falta do clima brasileiro, do calor humano, do ritmo mais desacelerado, mas engraado que quando estou no Brasil, sinto uma falta do Japo... Sinto falta da educao do povo, do atendimento exemplar nos rgo pblicos, do profissionalismo e at mesmo da vida corrida, um antagonismo total.

Escrever esses artigos para o jornal uma forma de diminuir a distncia entre Brasil e Japo; faz com que eu me sinta totalmente vontade, escrevendo para os meus leitores, como se o Brasil fosse aqui do lado, e eu s relatando o que acontece no Japo. E o carinho dos leitores faz com que eu me sinta totalmente no Brasil. Muitas vezes, j me emocionei com as mensagens e e-mails enviados pelos leitores dos artigos. Chorando, consegui ver que isso que importa para mim, independente do lugar onde eu estiver, meu corao sempre estar no Brasil, e cada vez que o meu artigo for lido, far com que eu me sinta cada vez mais perto do Brasil.

Na maioria das vezes, eu no sei a dimenso que cada artigo toma, e qual o tipo de projeo ele tem em cada cabea, mas s pelo fato de que alguns leitores sentam na frente do computador e tm o trabalho de me enviar um e-mail, tudo j valeu a pena.

E muito boa essa sensao de saber que estou a milhares de quilmetros do Brasil, mas, ao mesmo tempo, to perto, to presente. E olhar para trs e ver que cada momento de dificuldade valeu como um aprendizado no tem dinheiro que pague, certamente.

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